Ex-diplomata americano alerta sobre risco de expansão do conflito Irã-EUA via terrorismo
Ex-diplomata alerta sobre expansão do conflito Irã-EUA via terrorismo

Ex-diplomata americano alerta sobre risco de expansão do conflito Irã-EUA via terrorismo

Em fevereiro, o líder houthi Abdul-Malik al-Houthi declarou que seu grupo, baseado no Iêmen, estaria preparado para confrontos com Israel e seus aliados em solidariedade ao Irã. Esta afirmação ressalta a complexidade das alianças regionais que podem ampliar os conflitos no Oriente Médio. Segundo o diplomata e ex-integrante do Departamento de Estado americano da primeira administração Trump, Clarke Cooper, quanto mais a atual crise se prolongar, maiores são as chances do conflito se alastrar para além da região através do terrorismo e do uso pelo Irã de organizações aliadas.

Capacidades assimétricas e representantes iranianos

Cooper, que atuou como subsecretário de Estado para assuntos político-militares entre 2019 e 2021, explicou em entrevista à BBC News Brasil que, apesar dos golpes recentes à sua capacidade militar, o Irã ainda pode agir por meio de "seus representantes", como o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano ou os houthis no Iêmen. "Portanto, quanto mais isso se prolongar, maior será o risco em relação às capacidades assimétricas que Teerã poderá utilizar", afirmou, referindo-se a estratégias não convencionais usadas por forças mais fracas para explorar vulnerabilidades de adversários mais fortes.

Atualmente consultor privado e pesquisador do Atlantic Council, Cooper destacou que as consequências do conflito entre Irã e Estados Unidos podem ser sentidas até na Europa, através de atos terroristas. "Há ligações com atos terroristas muito específicos que ocorreram no Ocidente desde 1979", disse, apontando para o período após a Revolução Islâmica no Irã. Na visão do militar aposentado, Teerã vem usando "guerras por procuração" para atingir seus objetivos, evitando confrontos diretos.

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Histórico de tensões e estratégia iraniana

A invasão da embaixada americana em Teerã em novembro de 1979 marcou o ápice do declínio nas relações entre os dois países, com dezenas de americanos mantidos reféns por mais de um ano. Desde então, os Estados Unidos acusam o Irã de ser o principal "patrocinador estatal do terrorismo no mundo", apoiando financeiramente o chamado "eixo da resistência", que inclui grupos como Hamas, Hezbollah e houthis. A maioria desses grupos é considerada organização terrorista por países ocidentais.

Cooper acredita que o Irã detém o mais extenso arsenal de mísseis balísticos do Oriente Médio e utiliza sua capacidade de desenvolver ataques através de entidades paramilitares como preocupação constante de segurança nacional. "Além disso, há o uso da disrupção do comércio global, particularmente no setor marítimo, como forma de vantagem", completou.

Perspectivas sobre o fim do conflito e papel dos EUA

Apesar das preocupações, Cooper afirma que os EUA serão capazes de tomar decisões pragmáticas para encerrar a guerra quando seus objetivos forem concluídos. Ele destacou que a estratégia americana obteve sucesso até o momento e negou que o mundo enfrente uma nova guerra mundial ou conflito nuclear iminente. "Não diria que estamos vivenciando o começo de uma Terceira Guerra Mundial", afirmou, acrescentando que as linhas de comunicação entre Teerã e Washington não foram interrompidas.

Segundo o ex-diplomata, a decisão sobre quando o conflito acabará cabe em grande parte aos EUA, com o presidente Trump analisando a situação de forma pragmática. "Esta foi uma operação militar multidomínio muito bem-sucedida. Mas, no fim das contas, é preciso considerar por quanto tempo isso será sustentável", ponderou. Cooper acredita que, se as capacidades nucleares e de mísseis balísticos do Irã forem degradadas a um ponto sem retorno, o pragmatismo poderá levar ao fim das hostilidades.

Críticas e questões legais

Críticos do governo Trump argumentam que há poucas respostas sobre os objetivos a longo prazo da operação contra o Irã e acusam autoridades de se contradizerem em declarações. Membros da oposição democrata nos EUA questionaram a legalidade das ações, alegando que apenas o Congresso tem autoridade para declarar guerra, embora o presidente como comandante-em-chefe possa conduzir certas operações militares.

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O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que os ataques aéreos dos EUA e de Israel violaram o direito internacional, incluindo a Carta da ONU. Cooper, por sua vez, defendeu que as negociações com o Irã não estavam avançando antes dos ataques, e o governo americano avaliou que uma resposta era necessária. "Avaliou-se que, naquele momento, uma resposta era necessária", disse, baseando-se em informações públicas disponíveis.

Em resumo, Cooper enfatiza que a posição dura em relação ao Irã e seu programa nuclear não é exclusividade do governo Trump, remontando a administrações anteriores. "Isso remonta ao primeiro mandato do presidente Biden, ao primeiro mandato de Trump, ao primeiro mandato do presidente Obama, ao primeiro mandato do presidente Bush", concluiu, destacando a continuidade das preocupações com a segurança regional e global.