EUA e Azerbaijão intensificam pressão sobre Irã com plano de guerra civil e ataques separatistas
Com o fracasso em incitar uma grande revolta popular após a morte do líder supremo Ali Khamenei, o governo de Donald Trump avalia uma arriscada aposta numa guerra civil para derrubar a teocracia iraniana. Nesse cenário, ganhou um aliado improvável: o Azerbaijão, que agora exerce pressão adicional sobre Teerã.
Irã reage com ataques a curdos no Iraque e nega envolvimento em incidente com drones
Temendo o separatismo incentivado por Washington a grupos étnicos que compartilham fronteiras com seus vizinhos, o Irã lançou um ataque a curdos no Iraque. Simultaneamente, foi acusado por Baku por um ataque com drones, que negou sem convencer o belicoso governo de Ilham Aliyev.
"Eu acho que é maravilhoso que eles queiram fazer isso, eu apoiaria completamente", declarou Trump à agência Reuters sobre uma possível revolta curda. O próprio presidente teria ligado nesta semana para dois líderes de milícias curdas iranianas baseadas no vizinho, segundo múltiplos relatos que confirmam informações do site Axios. Ele não confirmou ter oferecido cobertura aérea à ação.
Dado o complexo cenário étnico e confessional da região, essa movimentação representa mais um barril de pólvora que o fogo do conflito pode incendiar. "Grupos separatistas não devem pensar que surgiu uma brisa, e eles devem tentar agir", alertou Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional e uma das figuras mais fortes da política iraniana atualmente.
Ataques ao Curdistão iraquiano e plano da CIA para fomentar separatismo
A ação mais dura do Irã foi direcionada ao Curdistão iraquiano, onde Teerã afirmou ter atingido sete bases de milícias que atuam de forma semiautônoma e mantêm contato com os americanos. "Atacamos as sedes de grupos curdos opositores à revolução [islâmica do Irã] com três mísseis", informou a agência estatal Irna.
O Iraque já havia sido alvo de retaliações iranianas anteriormente, com drones e mísseis lançados contra bases americanas na região. Em Irbil, no norte do país, as ações foram executadas por grupos rebeldes pró-Irã financiados por Teerã.
O ataque ocorre após a revelação de um plano da CIA para fornecer armas aos curdos iraquianos, com o objetivo de que atravessem a fronteira e fomentem um movimento separatista no Irã. Um porta-voz do Partido da Liberdade do Curdistão, um desses grupos iraquianos, afirmou na quarta-feira (4) que suas forças foram contatadas pelos americanos e estão de prontidão na área fronteiriça.
Contexto histórico e tensões com minorias étnicas no Irã
As províncias da fronteira oeste da teocracia têm maioria curda, etnia que compõe cerca de 10% dos 93 milhões de iranianos – o maior grupo é o persa, com aproximadamente 50% da população. Sob o regime islâmico instalado em 1979, os curdos sofreram grande repressão em sua busca por autonomia.
- Inúmeros conflitos ocorreram ao longo dos anos, mas em 2022 ganharam destaque mundial com a morte de Mahsa Amini, uma jovem curda iraniana que faleceu na cadeia após ser presa por usar um véu islâmico de forma inadequada.
- O caso desencadeou enormes protestos no país, só superados pela onda de manifestações no início deste ano, duramente reprimida e que serviu de justificativa inicial para Trump avançar o plano de atacar o Irã.
O presidente do Curdistão iraquiano, Nechirvan Barzani, buscou baixar as tensões, afirmando que a região "não deve ser parte de nenhum conflito". No entanto, os grupos armados pela CIA, segundo relatos disponíveis, são dissidentes do governo local, criando uma confusão significativa, já que os americanos são aliados de Bagdá, que não deseja ver a guerra se expandir em seu território.
Incidente no Azerbaijão e suspeitas de conspiração regional
O movimento mais surpreendente do dia ocorreu no Azerbaijão, primeiro país sem presença de militares americanos ou ocidentais atingido pela guerra. Pelo menos quatro pessoas ficaram feridas quando dois drones atingiram o aeroporto de Nakhchivan.
As Forças Armadas iranianas negaram a autoria do ataque. A chancelaria disse estar investigando o caso e sugeriu que o ataque foi realizado por Israel para "danificar os laços entre Baku e Teerã". O Azerbaijão não pareceu acreditar, fechando seu espaço aéreo junto ao Irã por pelo menos 12 horas.
Após condenar o ataque como terrorista e chamar o embaixador iraniano para se explicar, o presidente Aliyev ordenou "medidas de retaliação apropriadas" das Forças Armadas. "Esta é uma mancha que não sairá", afirmou o líder, lembrando a assistência consular dada pelo país a iranianos no Líbano.
Complexidade étnica e rivalidades regionais
A região atingida é um enclave azeri entre o Irã e a Armênia, com o terminal alvejado localizado a cerca de 10 km da fronteira iraniana. No Irã, aproximadamente 25% da população é de etnia azeri, grupo bastante integrado à vida social e política do país – Ali Khamenei, morto no ataque de sábado, era um deles.
- Os azeris são adeptos do xiismo, ramo minoritário do Irã centrado em Teerã, enquanto os curdos são majoritariamente sunitas.
- Duas das 31 províncias iranianas se chamam Azerbaijão, e a etnia é prevalente em outras duas, alimentando desconfianças históricas sobre intenções separatistas.
Teerã sempre desconfiou das intenções de Baku, especialmente após a vitória do Azerbaijão sobre a Armênia no controle do enclave de Nagorno-Karabakh em 2023. O governo azeri também é associado à Turquia, rival regional do Irã, e a Israel, que forneceu tecnologia militar vital.
Além disso, Trump foi fiador de um acordo de paz entre Baku e Ierevan no ano passado e está financiando a criação de um corredor econômico ligando Nakhchivan ao território principal do Azerbaijão. Nesse contexto, o ataque ao aeroporto pode servir como um tiro de advertência sobre intenções secessionistas.
Expansão do conflito e relatos de organização balochi
Por outro lado, se o ataque foi uma ação de terceiros ou mesmo de azeris, a teoria iraniana de uma conspiração para abrir uma nova frente ganha força. Finalmente, há relatos de que grupos da etnia balochi, que representa apenas 2% dos iranianos, estão se organizando com ajuda americana no Paquistão, na fronteira leste da teocracia.
Até o momento, além de Israel, a retaliação iraniana atingiu outros sete países no Oriente Médio. Houve também ataques pontuais contra uma base britânica em Chipre, e um míssil foi interceptado pela Otan rumo à Turquia na quarta-feira, evidenciando a escalada do conflito.
