Estratégia de guerra do Irã: desgaste prolongado e drones contra superioridade militar
Estratégia iraniana: guerra de atrito contra EUA e Israel

Estratégia iraniana: guerra de atrito contra superioridade militar

A Guarda Revolucionária representa um setor dominante das Forças Armadas iranianas, desempenhando papel crucial no atual conflito regional. Estados Unidos e Israel afirmam que seus ataques aéreos conjuntos já causaram danos significativos às instalações militares do Irã, com o presidente americano Donald Trump declarando nas redes sociais que as defesas aéreas, força aérea, marinha e liderança iranianas "se foram".

Objetivo: transformar conflito em guerra prolongada

O especialista em segurança do Oriente Médio H. A. Hellyer, do Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança, explica que o objetivo militar atual do Irã não é vencer Estados Unidos ou Israel em uma guerra convencional, mas sim transformar o conflito em um evento "prolongado, regionalmente disperso e economicamente caro". Segundo ele, o Irã não pode vencer convencionalmente, mas sua estratégia busca garantir que a vitória dos adversários permaneça cara e incerta.

A professora Nicole Grajewski, do Centro de Estudos Internacionais da Universidade Sciences Po na França, corrobora essa análise, descrevendo a estratégia iraniana como "uma guerra de atrito" projetada para desgastar o oponente através do esgotamento de recursos e perdas sustentadas. Existe também uma dimensão psicológica importante, com o Irã direcionando ataques a áreas civis durante a Guerra dos 12 Dias para instilar temor e trauma na população.

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Arsenal defensivo: mísseis e drones

Acredita-se que mísseis e drones formem a principal estrutura do arsenal defensivo iraniano. Embora o inventário de mísseis balísticos tenha sido seriamente afetado durante a Guerra dos 12 Dias, os números exatos permanecem incertos devido ao armazenamento subterrâneo e aos esforços contínuos de reposição. Israel calcula que o Irã possuía cerca de 2,5 mil mísseis em fevereiro de 2026, de curto e médio alcance.

As autoridades iranianas frequentemente mencionam instalações de mísseis subterrâneas conhecidas como "cidades de mísseis", embora detalhes sobre escala e inventário permaneçam sem verificação independente. O general americano Dan Caine afirma que os lançamentos de mísseis balísticos pelo Irã caíram 86% desde o primeiro dia de combate, com queda adicional de 23% reportada pelo Comando Central dos Estados Unidos.

Capacidade de ataque e importância estratégica

Hellyer destaca que o Irã mantém capacidade significativa para atingir infraestrutura israelense, bases regionais americanas e aliados do Golfo, além de ameaçar os fluxos globais de energia através do Estreito de Ormuz. Cerca de 20% do petróleo mundial passa por esse estreito, que atualmente está efetivamente fechado pelo Irã, que prometeu atacar qualquer navio que tente transitar pela região.

Embora o Irã possa enfrentar escassez de mísseis avançados e propelentes sólidos, sua capacidade de lançar drones permanece significativa. Acredita-se que o país tenha produzido dezenas de milhares de drones de ataque Shahed kamikazes antes da guerra, tecnologia que foi exportada para a Rússia e até reproduzida parcialmente pelos Estados Unidos.

Estratégia de desgaste e exaustão

Os drones atendem a objetivos estratégicos além dos danos diretos, desgastando sistemas de defesa aérea ao longo do tempo e forçando adversários a gastar mísseis interceptadores de alto custo. Grajewski explica que "parte disso pretende exaurir as capacidades de interceptação", estratégia similar à utilizada pela Rússia na Ucrânia.

Os Estados Unidos afirmam que os lançamentos de drones pelo Irã caíram 73% desde o primeiro dia do conflito. O Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Tel Aviv declarou que Estados Unidos e Israel realizaram mais de 2 mil ataques com múltiplas munições, enquanto o Irã lançou 571 mísseis e 1.391 drones, muitos dos quais foram interceptados.

Forças armadas e aliados regionais

O Irã mantém uma das maiores forças armadas do Oriente Médio, com aproximadamente 610 mil militares na ativa segundo estimativas do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Essa força inclui 350 mil no exército regular e 190 mil no Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, que supervisiona programas de mísseis, drones e operações regionais.

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O país também conta com uma rede de aliados regionais conhecida como Eixo da Resistência, incluindo rebeldes houthis no Iêmen, grupos armados do Iraque, Hezbollah no Líbano e Hamas nos territórios ocupados. No entanto, essa rede sofreu fortes baixas durante os combates que se espalharam pela região após o ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023.

Resiliência histórica e desafios atuais

Apesar das restrições atuais, o Irã possui experiência em suportar conflitos prolongados, com resiliência que remonta à Guerra Irã-Iraque (1980-1988), quando cidades iranianas foram repetidamente atacadas apesar da inferioridade convencional. No entanto, a continuidade da estratégia iraniana pode depender da coesão interna do país.

Grajewski alerta que operadores de mísseis estão sob muita tensão e exaustão, o que causa imprecisões ou disparos acidentais contra alvos errados. Muitas operações estão mais desorganizadas e existe um nível significativo de exaustão, situação que, combinada com contínuos ataques às forças e estoques de mísseis do Irã, "poderá gerar uma escalada inadvertida".

Risco de escalada e pressão regional

A Turquia, que buscou mediar negociações entre Irã e Estados Unidos antes do início da guerra aérea, alertou para que "todas as partes evitem tomar ações que gerem escaladas maiores". O país vizinho do Irã viu suas defesas aéreas da Otan destruírem um míssil balístico iraniano que se dirigia para seu espaço aéreo.

O objetivo principal do Irã é tornar as condições "tão intoleráveis" para países vizinhos que possam pressionar os Estados Unidos para um acordo mais negociado ou para o fim das hostilidades. No entanto, Hellyer adverte que países do Golfo "podem decidir que, embora se oponham em princípio à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, sua própria segurança está em risco devido às represálias iranianas contra eles".

Essa dinâmica pode levar os países do Golfo a apoiar a campanha americana para pôr fim à ameaça imediata do Irã, representando um risco significativo para a estratégia iraniana de prolongamento do conflito. Manter o atual nível de combate se tornará cada vez mais difícil para ambos os lados à medida que a guerra continua, com especialistas destacando a crescente complexidade do cenário regional.