Governadora de Pernambuco enfrenta processo de impeachment por supostas irregularidades em empresa familiar
A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), se tornou alvo de um pedido de impeachment protocolado na Assembleia Legislativa do estado (Alepe) nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026. O requerimento foi apresentado pelo deputado estadual Romero Albuquerque (União) e está baseado em denúncias de irregularidades envolvendo a empresa de ônibus intermunicipais Logo Caruaruense, pertencente ao pai da governadora, o ex-governador João Lyra (PSD).
Acusações de falta de fiscalização e contratação ilegal
De acordo com o deputado Romero Albuquerque, a empresa operava com irregularidades operacionais graves e sem a fiscalização obrigatória por parte do governo estadual nos últimos anos. O parlamentar afirma que essa situação permitiu que toda a frota de ônibus tivesse idade três vezes maior do que o permitido pela legislação vigente.
"O governo sobrepôs interesses privados ao interesse público. O que houve foi um erro administrativo grave", declarou Albuquerque, que caracterizou a situação como crime de responsabilidade. O deputado ainda afirmou que as fiscalizações pararam de ocorrer exatamente quando Raquel Lyra assumiu o governo do estado, em 2023.
Relatório interno aponta múltiplas irregularidades
Um relatório interno da Empresa Pernambucana de Transporte Coletivo Intermunicipal (EPTI) detalha diversas irregularidades na Logo Caruaruense, incluindo:
- Funcionamento com vistorias vencidas
- Ausência do Certificado de Registro Cadastral (CRC)
- Não pagamento do CRC desde pelo menos 2020
- Nenhum dos cinquenta ônibus da empresa passou por vistoria desde 2022
O documento revela que as irregularidades começaram um ano antes da governadora assumir o comando do estado, em 2022, mas se intensificaram durante sua gestão.
Acusações de contratação ilegal com recursos públicos
O pedido de impeachment também acusa o governo de Pernambuco de ter contratado a empresa familiar de maneira ilegal. Segundo o texto do requerimento, a Logo Caruaruense foi contratada sem licitação e sem a formalização de qualquer procedimento licitatório durante os anos de 2023, 2024 e 2025.
O documento afirma que a empresa já recebeu mais de 100.000 reais dos cofres estaduais por serviços que não poderia estar realizando devido às irregularidades operacionais. O deputado Albuquerque considera essa situação uma "patente afronta" à legislação federal que rege as contratações públicas e aos princípios constitucionais da administração pública.
Resposta da governadora e fechamento da empresa
Na semana passada, quando as denúncias contra a Logo Caruaruense vieram à tona publicamente, a governadora Raquel Lyra anunciou o fechamento da empresa. Em coletiva de imprensa realizada na sexta-feira, 16 de janeiro, ela declarou:
"Tomei conhecimento, hoje pela manhã, que a empresa entregou as suas linhas à Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI). E a EPTI vai trabalhar para que a gente não tenha prejuízo à população, para que o sistema continue funcionando, e a gente permita que a população tenha o direito de ir e vir".
A governadora, que já fez parte do quadro societário da empresa mas não participa mais, enfatizou seu compromisso com a continuidade do serviço de transporte para a população pernambucana.
Tramitação do processo e contexto político
O presidente em exercício da Alepe, deputado Rodrigo Farias (PSB), recebeu formalmente o pedido de impeachment e afirmou que o requerimento será analisado a partir do dia 2 de fevereiro, após o fim do recesso parlamentar. Para que o caso seja julgado, é necessária a assinatura de dois terços dos deputados estaduais, o que corresponde a dezesseis assinaturas.
Farias assegurou que a tramitação seguirá todos os critérios regimentais e constitucionais vigentes, garantindo a devida seriedade e transparência ao processo. O contexto político é especialmente sensível, já que tanto o deputado Rodrigo Farias quanto Romero Albuquerque são aliados do prefeito do Recife, João Campos (PSB), principal oponente político da governadora.
João Campos também se tornou alvo de um pedido de impeachment na Câmara de Vereadores do Recife no início do ano, por causa de um escândalo referente à nomeação apontada como irregular para um cargo público de salário elevado. Raquel Lyra e João Campos devem disputar o governo de Pernambuco nas eleições de outubro, e suas bases políticas já se articulam há meses para promover ações eleitoreiras.
A equipe de comunicação da governadora Raquel Lyra foi contatada para se manifestar sobre as acusações, mas não retornou até o momento da publicação deste texto. O espaço para manifestação continua aberto.