Fim de uma era política em Sorocaba: PSDB fica sem representação após 32 anos
A filiação do deputado federal Vitor Lippi e da deputada estadual Maria Lúcia Amary ao PSD na última sexta-feira (8) marcou o encerramento de um ciclo histórico para o PSDB na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo. Pela primeira vez desde 1992, o partido que já exerceu hegemonia política na região não contará com nenhum representante eleito pelo município, evidenciando um processo de esvaziamento que especialistas atribuem à polarização nacional e à perda de identidade partidária.
Da hegemonia ao ostracismo: a trajetória de declínio
O PSDB estabeleceu seu domínio em Sorocaba a partir de 1996, quando Renato Amary conquistou a prefeitura, iniciando uma sequência de cinco vitórias consecutivas do partido no Executivo municipal. No auge de sua influência, durante os anos 2000, a sigla controlava não apenas a prefeitura, mas também possuía:
- A maior bancada da Câmara Municipal
- Representação na Assembleia Legislativa
- Um deputado federal
- O governo do estado com José Serra
Contudo, esse cenário mudou radicalmente. Em 2016, o monopólio tucano no Paço Municipal terminou após 20 anos, e atualmente o partido nem sequer possui um diretório constituído na cidade. A lista desatualizada do Tribunal Superior Eleitoral ainda registra Lippi e Amary como presidente e vice-presidente, respectivamente, mas a realidade é de um vácuo político completo.
O evento de filiação e a busca pela "terceira via"
A cerimônia de filiação ao PSD reuniu lideranças nacionais como Gilberto Kassab, presidente do partido, e os governadores Eduardo Leite (RS), Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Junior (PR). O discurso predominante foi o da construção de uma "terceira via" política, apresentada como alternativa à polarização entre lulismo e bolsonarismo.
Maria Lúcia Amary endossou essa perspectiva ao justificar sua saída: "Agora é a hora de virar a chave, porque o partido não é mais o partido que foi, as pessoas que me inspiraram não estão mais no partido. E a forma nova das novas executivas do PSDB não têm sintonia com a minha forma de ver a política".
Vitor Lippi, por sua vez, evitou críticas diretas e focou no novo momento: "Aprendi muito com grandes pessoas do PSDB. Agora o PSD está em um ótimo momento, é um partido que está crescendo e conseguiu aglutinar grandes lideranças do país".
Análise especializada: as causas do esvaziamento
Segundo a socióloga e especialista em marketing político Érica Regina, pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o declínio do PSDB em Sorocaba reflete um fenômeno nacional. O partido ficou "espremido" pela polarização política, incapaz de sustentar seu posicionamento de centro diante de um eleitorado que passou a exigir definições mais claras entre esquerda e direita.
"O PSDB ficou muito perdido nessa questão da polarização que nós vivemos hoje no nosso país. Quando o Lippi sai para ir para o PSD, aí realmente desmonta, porque ele era uma liderança aqui na cidade", explica a pesquisadora.
Ela destaca ainda que o voto no Brasil é fortemente personificado, e a migração de lideranças como Lippi desestruturou os diretórios municipais, deixando o partido em um vácuo político. A fragmentação interna e a ascensão do bolsonarismo como contraponto ao PT teriam acelerado a perda do espaço que o PSDB ocupava desde a redemocratização.
A tentativa de reconstrução
A tarefa de reerguer o partido na cidade ficará a cargo de Luiz Salmeron, que assume o diretório municipal com o desafio de "reestruturar e ocupar este espaço vazio". Ele reconhece que, nos últimos anos, o PSDB deixou de participar dos movimentos políticos locais e não renovou seus quadros, perdendo assim o protagonismo.
"Hoje podemos construir uma nova agenda, buscando um diálogo direto e mais atual com a cidade que Sorocaba se tornou. Assim, construindo novamente estruturas para que a social democracia seja representada tanto no Legislativo quanto no Executivo", afirma Salmeron.
A análise da socióloga Érica Regina oferece uma perspectiva contundente sobre o futuro: "Um partido é como uma empresa: se ele não se adapta, se ele não entende o jogo e se ele não joga conforme, ele realmente vai se esvaziando. É o fim realmente desse partido que teve uma importância, mas que foi se esvaziando".
O caso de Sorocaba serve como um microcosmo das transformações políticas brasileiras, onde partidos históricos enfrentam o desafio de se reinventar em um cenário de polarização acentuada e migração de lideranças para agremiações que prometem alternativas ao bipartidarismo emergente.



