MP-SP instaura investigação sobre caos em bloco de pré-carnaval na capital paulista
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu formalmente um inquérito preliminar para investigar os episódios de superlotação e tumulto que marcaram o desfile do Bloco Skol, comandado pelo renomado DJ escocês Calvin Harris. O evento ocorreu no domingo (8) na tradicional Rua da Consolação, no coração do Centro da capital paulista, e gerou cenas de pânico entre os foliões.
Exceção polêmica da prefeitura para bloco patrocinado
A Prefeitura de São Paulo havia estabelecido uma regra clara para o Carnaval 2026: não seriam aceitas novas inscrições para blocos nos períodos do pré e pós-carnaval em nenhuma região da cidade. Contudo, uma exceção foi aberta especificamente para o Bloco Skol, que contou com a presença estelar de Calvin Harris. A administração municipal, quando questionada, não forneceu explicações sobre os motivos dessa autorização especial até o fechamento desta reportagem.
Tradicionalmente, o domingo de pré-carnaval na Rua da Consolação é reservado ao consagrado bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, que costuma atrair impressionantes mais de 1 milhão de foliões. Este ano, no entanto, o espaço teve de ser dividido com o Bloco Skol, com horários de concentração separados por apenas três horas, criando uma sobreposição logística preocupante.
Cenas de terror e dezenas de atendimentos médicos
A superlotação no bloco de Calvin Harris provocou um tumulto generalizado, com empurra-empurra, gritaria e a derrubada de grades de contenção. Dezenas de foliões precisaram ser socorridos após passarem mal devido à aglomeração excessiva. Um vídeo registrado por uma testemunha mostra pessoas caindo no chão e ambulantes perdendo suas mercadorias no meio da confusão.
A coordenadora de marketing Lara Faria, de 27 anos, relatou momentos de pânico durante o evento. "Comecei a escalar o poste e subi em cima do semáforo. Fiquei esperando um tempo até acalmar. Eu olhava para baixo e via as pessoas passando mal abaixo, sendo empurradas. Quando deu uma melhorada, eu desci. Na adrenalina do momento, não senti nada, mas na hora que desci, vi que estava com a perna toda ralada. Foi desesperador, foram cenas de filme de terror", desabafou a foliona.
Reações políticas e acionamento do Ministério Público
Parlamentares da oposição, incluindo o vereador Nabil Bonduki (PT) e a deputada federal Érika Hilton (PSOL), acionaram o MP-SP para investigar a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) na organização do carnaval de rua. Eles alegam gestão temerária e priorização de interesses comerciais em detrimento da segurança pública.
Bonduki, que é urbanista e professor da USP, afirmou: "Estou acionando o Ministério Público para que seja realizada, em caráter de urgência, uma reunião entre a Prefeitura, a Polícia Militar e os demais envolvidos na organização do carnaval de rua. Cenas como as de hoje não podem se repetir nos próximos desfiles".
Já Érika Hilton e a vereadora Amanda Paschoal (PSOL) protocolaram representação no MP-SP argumentando que "a gestão municipal autorizou de forma consciente a realização de dois megablocos no mesmo local e horário, apesar de alertas prévios sobre os riscos da sobreposição".
Posicionamento da prefeitura e novas medidas anunciadas
A Prefeitura de São Paulo, por meio de nota oficial, defendeu a organização do pré-carnaval, classificando o final de semana como "um sucesso" considerando a quantidade de pessoas e as poucas ocorrências graves. A administração municipal destacou que o plano de contingência foi acionado e que as cinco pessoas atendidas nos postos da prefeitura já foram liberadas dos hospitais.
No entanto, reconhecendo os problemas, a gestão anunciou mudanças para os próximos megablocos:
- Agentes da prefeitura atuarão dentro dos trios elétricos para melhorar a dinâmica dos desfiles
- Ampliação das áreas de saída em circuitos como o do Parque do Ibirapuera
- Reposicionamento dos postos de saúde para áreas estratégicas dentro dos circuitos
- Reforço no policiamento com 6.400 guardas civis metropolitanos (20% a mais que no ano anterior)
- Monitoramento intensificado com 482 câmeras do Smart Sampa e 23 drones
Controvérsia sobre horários e reivindicações históricas
Para viabilizar a organização dos dois megablocos na mesma data, a prefeitura autorizou ainda outra exceção: permitiu que o Baixo Augusta desfilasse até as 19h, uma hora além do limite máximo previsto de 18h. Esta flexibilização atende a uma antiga reivindicação dos blocos tradicionais de São Paulo, que há anos pedem a ampliação dos horários de desfile, inclusive para o período noturno.
O Baixo Augusta emitiu nota expressando descontentamento: "Com 17 anos de história, o maior bloco da cidade e um dos maiores do Brasil foi desrespeitado de forma triste e violenta, mostrando a todos uma prova clara da falta de competência para realizar o que foi proposto e do compromisso da cidade com os blocos que recriaram o carnaval de São Paulo".
Governador reconhece desafios logísticos
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comentou a situação nesta segunda-feira (9), afirmando que "não dá para ter 1,5 milhão de pessoas na Consolação" e reconhecendo que o carnaval de rua da capital "está cada vez mais concorrido". Ele elogiou a atuação rápida da prefeitura e da Polícia Militar na remoção de gradis e liberação de ruas transversais para escoamento da multidão.
A Polícia Militar informou que adotou diversas estratégias a partir da Sala de Gerenciamento de Incidentes, com monitoramento aéreo por helicóptero e drones, além de coordenação integrada com órgãos parceiros como Metrô e CET. A corporação afirmou que, até o momento, não há registro de feridos graves em decorrência dos incidentes.
A investigação do MP-SP deve apurar responsabilidades e verificar se houve falhas na gestão do evento que colocaram em risco a segurança dos foliões. O caso reacende o debate sobre a capacidade de organização de megaeventos na maior cidade do país e o equilíbrio entre interesses comerciais e segurança pública.



