Carnaval do Rio Vira Palco de Disputa Política com Enredo Dedicado a Lula
A decisão da escola de samba Acadêmicos de Niterói de levar à Sapucaí um samba-enredo inteiramente dedicado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou o Carnaval do Rio de Janeiro em mais uma arena de embate político. O tema, que já vinha sendo discutido em programas como Os Três Poderes, ganhou contornos ainda mais polêmicos com a revelação dos detalhes do desfile e do orçamento envolvido.
Orçamento de R$ 13,4 Milhões e Recursos Públicos no Centro da Polêmica
O desfile da Acadêmicos de Niterói está orçado em R$ 13,4 milhões, valor que inclui recursos públicos repassados às escolas de samba. Esse aspecto financeiro acendeu um alerta na oposição, que protocolou uma ação no Tribunal de Contas da União questionando o possível uso indevido de verba estatal para fins de promoção política em ano eleitoral.
O enredo, intitulado Do alto do Mulungu, surge a esperança: Lula, o operário do Brasil, promete exaltar a trajetória do petista como uma verdadeira epopeia política, desde sua infância no Nordeste até a chegada ao Planalto. A escolha da palavra "esperança", slogan recorrente nas campanhas de Lula, foi um dos primeiros elementos a gerar controvérsia ainda no pré-carnaval.
Críticas Diretas a Bolsonaro e Ausência de Contraponto
Além da homenagem ao presidente atual, o desfile inclui críticas diretas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Estão previstas alas com foliões vestidos de jacaré — referência à polêmica fala de Bolsonaro sobre vacinas —, um carro alegórico com o ex-presidente retratado como o palhaço Bozo e até um "vampiro" simbolizando o período em que o PT ficou fora do poder.
Analistas políticos apontam que a narrativa construída pela escola não deixa margem para nuances ou ironia, algo considerado incomum mesmo nos desfiles historicamente politizados do Carnaval carioca. A ausência total de contraponto crítico dentro do enredo é vista como um elemento que intensifica o caráter partidário da apresentação.
Envolvimento de Lula e Presença de Autoridades
De acordo com informações apuradas, o presidente Lula acompanhou de perto a composição do samba. Um dos versos mais comentados — "não é digno fugir" — foi elogiado pessoalmente por Lula, por ser interpretado como uma alfinetada no adversário político. O presidente ainda sugeriu incluir a expressão "soberania nacional" na letra, mas a ideia acabou descartada pelos compositores por dificuldades de rima.
O desfile deve reunir uma extensa lista de autoridades e ministros no último carro alegórico, entre eles Alexandre Padilha, Margareth Menezes, Camilo Santana e a primeira-dama Janja. O ministro Fernando Haddad ainda avalia se desfila ou se acompanha o presidente no camarote do prefeito Eduardo Paes.
Segurança Reforçada e Possíveis Consequências Pós-Carnaval
Diante do temor de protestos ou confrontos políticos, o esquema de segurança será reforçado com cerca de 50 policiais à paisana circulando como foliões durante o desfile. As ações movidas pela oposição no TCU só devem ser analisadas após o Carnaval, o que reduz o impacto imediato, mas o episódio tende a alimentar o discurso de propaganda eleitoral antecipada.
O caso pode virar munição no debate político pós-folia, inclusive entre petistas que temem que um eventual rebaixamento da escola seja explorado como "efeito Lula". A polêmica reacende discussões sobre os limites entre cultura, política e uso de recursos públicos em eventos de grande visibilidade nacional.