Enquanto nações como Coreia do Sul, Japão e Singapura discutem como a inteligência artificial pode personalizar o aprendizado, o Brasil ainda trava batalhas do século passado na educação. A conclusão emerge do Ipsos Education Monitor 2025, um amplo levantamento realizado em 30 países, que escancara o abismo entre as preocupações brasileiras e a agenda educacional de países líderes.
Diagnóstico de uma paralisia: infraestrutura vs. inovação
O estudo, divulgado em 7 de janeiro de 2026, mostra que apenas 31% dos brasileiros avaliam positivamente o sistema de ensino nacional. O índice fica abaixo da média global, que é de 34%. Para Marcos Calliari, CEO da Ipsos no Brasil, os dados refletem uma contradição permanente: o reconhecimento da importância da educação não se traduz em ação urgente para resolvê-la.
Quando questionados sobre os principais desafios, os brasileiros apontam problemas estruturais básicos: falta de financiamento público (34%), precariedade da infraestrutura escolar (29%), formação insuficiente de professores (20%) e currículo desatualizado (10%). "São respostas que traduzem problemas óbvios e inegáveis", analisa o relatório, destacando a falta de inovação estrutural.
Enquanto isso, o debate em nações com melhor desempenho já migrou para o futuro. A Coreia do Sul, por exemplo, implementa seu programa nacional de AI Digital Textbooks (Livros Didáticos Digitais com IA), mesmo enfrentando desafios técnicos iniciais. O país já discute a integração de sistemas adaptativos ao currículo, um passo distante da realidade brasileira.
Desigualdade, saúde mental e o abismo geracional
Além dos entraves materiais, a pesquisa revela dois problemas graves e interligados: a desigualdade de acesso e a crise de saúde mental entre os jovens. O CEP (Código de Endereçamento Postal) continua sendo um forte determinante da qualidade do ensino, perpetuando um sistema que "instrui pouco, reproduz muito e raramente se reinventa".
Para 40% dos brasileiros, o maior desafio da juventude é a pobreza e a desigualdade. Em seguida, vêm a má qualidade do ensino (31%) e questões de saúde mental e bullying (30%). Globalmente, a saúde mental é o tema mais citado (33%).
No Brasil, 63% da população avalia como "pobre" a saúde mental dos jovens, índice superior à média global de 53%. "Trata-se de uma geração que tenta aprender em meio a um colapso de referências", pontua o estudo, pressionada por resultados e sobrecarregada por um sistema que não dialoga com suas ansiedades.
Tecnologia: proibir ou integrar?
A relação do Brasil com a tecnologia na educação é ambígua e reveladora. Segundo a Ipsos, 62% dos brasileiros são favoráveis a proibir smartphones nas escolas, e 69% defendem o banimento do acesso de menores de 14 anos às redes sociais.
Essa postura majoritariamente restritiva contrasta com a visão de países asiáticos, que buscam integrar o digital de forma inteligente e crítica ao processo educativo. "O problema não é a ferramenta, e sim a falta de um projeto", avalia o relatório. Enquanto o Brasil hesita entre a desconfiança e a inércia, outras nações avançam na transformação do digital em um motor de aprendizagem.
A comparação com Europa e Estados Unidos ajuda a contextualizar. Nessas regiões, o debate atual gira menos em torno de infraestrutura – um problema resolvido há décadas – e mais sobre impactos sociais: saúde mental, excesso de telas e riscos da IA generativa. O Brasil, porém, está em outro estágio histórico, preocupado com o chão da escola e as condições básicas de ensino.
O futuro que não espera
O relatório conclui que a escola brasileira ainda opera sob uma lógica ultrapassada de transmissão de conhecimento, como se fosse um estoque a ser entregue, e não um processo a ser construído coletivamente. O resultado é um círculo vicioso: professores desmotivados, alunos exaustos e uma sociedade cobrando resultados de um modelo que falha.
Enquanto parte da Ásia avança para etapas de personalização do ensino, análise de dados e ecossistemas tecnológicos, o Brasil segue tentando resolver questões fundamentais do século passado. A lição, segundo a análise, não é replicar a Coreia do Sul, mas aprender que eles só chegaram ao debate sobre IA porque antes resolveram seus alicerces educacionais.
Para reinventar a educação, é preciso antes garantir que ela exista de maneira plena, acessível e equitativa. "O Brasil ainda não chegou lá, e essa talvez seja a lição que seguimos adiando", finaliza o estudo. A hora de tornar o tema prioritário, alerta, é agora.