O 2º Fórum Observai de Educação Ambiental encerrou neste domingo (17) sua participação durante o Avistar 2026, no Jardim Botânico de São Paulo. O evento consolidou-se como um dos principais espaços de debate sobre conservação, mudanças climáticas, biodiversidade e a conexão entre sociedade e natureza.
Distanciamento das novas gerações
Um dos principais temas debatidos foi o crescente distanciamento das novas gerações em relação à natureza. Durante palestra no segundo dia, o ambientalista Nondas Okiama alertou para os impactos da hiperurbanização e do excesso de telas na formação das crianças. "As crianças reconhecem influencers, artistas e conteúdos das redes sociais, mas não reconhecem uma árvore ou o canto de um pássaro perto de casa", afirmou.
Segundo ele, estudos internacionais mostram que a desconexão entre seres humanos e natureza vem aumentando desde os anos 1970. "O medo da natureza cresce e a experiência de vida fica cada vez mais isolada no contexto humano", explicou. Okiama defendeu que a educação ambiental precisa ir além da informação e criar vínculos afetivos com o meio ambiente. "Uma criança que aprende a respeitar a vida cresce menos disposta a destruí-la", destacou.
A mesma preocupação apareceu na palestra da veterinária e educadora ambiental Manu Karsten, no último dia do fórum. Ela defendeu que campanhas ambientais baseadas apenas em tragédias e catástrofes podem afastar crianças e adolescentes do tema. "Em vez de gerar engajamento, a gente gera uma angústia muito grande", afirmou. Para Manu, a educação ambiental precisa começar pela reconexão emocional com a natureza. "Eu não posso falar sobre mudanças climáticas para uma criança pequena, mas posso falar sobre amor e reconexão", disse.
Educação climática
Outro destaque foi a discussão sobre educação climática nas escolas. A pesquisadora Daniela Resende de Faria apresentou projetos do Labeduc, laboratório da Universidade Estadual de Campinas, que utiliza oficinas, jogos pedagógicos e inteligência artificial para aproximar estudantes dos impactos das mudanças climáticas. "A educação climática precisa ser interdisciplinar. Não dá para separar clima, sociedade e natureza", afirmou. Segundo Daniela, a procura por materiais sobre mudanças climáticas cresceu nos últimos anos, impulsionada por eventos extremos.
O fórum também abriu espaço para saberes tradicionais e conservação da biodiversidade. A pesquisadora Simone Mamede apresentou um projeto em escolas da comunidade quilombola Kalunga, que utiliza a observação de aves como ferramenta de educação ambiental e valorização cultural. A iniciativa já catalogou cerca de 300 espécies de aves na região. Um exemplo citado foi o pássaro conhecido nacionalmente como "chora-chuva", chamado na comunidade de "Maria Fiadeira", em referência ao som de antigas máquinas de fiar.
O primeiro dia do fórum contou com a participação do ornitólogo e youtuber Willian Menq, criador do canal "Planeta Aves", com mais de 1,3 milhão de inscritos. Ele falou sobre o crescimento da observação de aves no Brasil e o papel da internet na divulgação científica. "O vídeo é um convite para conhecer o parque da cidade, observar as aves do quintal e olhar para o mundo natural", afirmou.
Produções do Terra da Gente
O evento exibiu produções especiais do Terra da Gente, como os documentários "Entre Pedras e Flores: a Essência de Cora Coralina", "No Tom das Aves" e "Mutum-de-Alagoas e o Cordel do Recomeço". O filme sobre Tom Jobim mostrou como o compositor se inspirava na observação de aves e da fauna brasileira. Já o especial sobre o mutum-de-alagoas apresentou esforços para evitar a extinção de uma das aves mais ameaçadas do Brasil.
Após três dias de programação, o 2º Fórum Observai reforçou o papel da educação ambiental, da ciência e da divulgação científica na construção de uma relação mais próxima entre sociedade e natureza. Realizado dentro do Avistar 2026, um dos maiores encontros de observação de aves da América Latina, o evento reuniu centenas de participantes em debates sobre clima, biodiversidade, conservação e futuro ambiental.



