Juro alto inibe investimento e limita crescimento do PIB, aponta Santander
Juro alto inibe investimento e limita crescimento do PIB

No dia 29 de maio, o IBGE divulgará o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2026. De acordo com estimativas da consultoria 4intelligence, o PIB total, a preços de mercado, deve apresentar alta de 1,8% em relação ao mesmo período de 2025, marcando o 21º resultado positivo consecutivo. Em termos dessazonalizados, o avanço seria de 1,0% na comparação com o último trimestre de 2025, indicando uma retomada do crescimento após dois trimestres de virtual estabilidade.

Fatores que impulsionam o crescimento

Para a consultoria, a retomada de uma taxa de crescimento substancial no início do ano está relacionada a três fatores principais: estímulos governamentais, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e uma liberação excepcional do saldo do FGTS; a continuidade do avanço da agropecuária; e o favorecimento do mecanismo de ajuste sazonal aplicado pelo IBGE no PIB total.

Desempenho setorial

Na análise por setor, a agropecuária deve registrar queda de 0,3% em termos anuais, mas crescimento de 1,5% no trimestre, impulsionada pela soja (que deve ter outra safra recorde em 2026) e pela pecuária. A indústria, após fraco desempenho no final do ano passado, deve retomar trajetória de alta, com crescimento de 1,7% sobre o primeiro trimestre de 2025 e 1,0% sobre o quarto trimestre. Destaque para a extrativa mineral, com avanço anual de 11,7% e trimestral de 2,7%, impulsionada por recordes na extração de petróleo, gás natural e outros minérios. A indústria de transformação, estagnada em termos anuais, deve crescer 0,7% no trimestre, enquanto a construção civil, após queda de 1,5% no ano, avançaria 0,9% no trimestre. A consultoria observa que a produção de Insumos Típicos da Construção Civil (ITCC) continua fraca, mas a ocupação e a massa de rendimentos dos trabalhadores melhoraram.

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Serviços sustentam o PIB

O setor de serviços, que representa 67% do PIB, deve crescer 2,2% em bases anuais e 0,9% no trimestre, com praticamente todos os segmentos registrando altas marginais. Estímulos fiscais e a resiliência do mercado de trabalho favorecem segmentos como comércio (+1,5% no trimestre) e outros serviços (+0,7%). Na direção contrária, transporte, armazenagem e correio devem cair 1,3% no trimestre, na segunda queda trimestral, afetados pela explosão do preço do petróleo e aumento do valor dos combustíveis.

Demanda e investimento

Sob a ótica da demanda, esperam-se avanços marginais relevantes no consumo das famílias (+1,7% anual e +0,9% trimestral) e na Formação Bruta de Capital Fixo (+0,8% anual e +5,4% trimestral). Este último, apesar dos números contidos da construção civil e da produção de bens de capital, deve ganhar fôlego com a importação de uma grande plataforma de petróleo em fevereiro, provavelmente a única neste ano. Pelo lado externo, as exportações devem crescer 6,4% em 12 meses e cair 2,3% no trimestre, enquanto as importações teriam queda anual de 1,5%, mas avanço trimestral de 2,4%, devido aos impactos do Golfo Pérsico.

Perspectiva para 2026

A consultoria observa que, se confirmada a estimativa para o primeiro trimestre, o PIB total teria um carregamento em 2026 de +1,4% — ou seja, a variação anual do PIB sob a hipótese de variação dessazonalizada nula nos três trimestres seguintes. Esse valor é compatível com a perspectiva de desaceleração das taxas de crescimento marginais nos próximos trimestres, de forma que o PIB encerre 2026 com crescimento próximo a 2%.

Juros altos freiam investimento privado

O Banco Santander, ao analisar as perspectivas de crescimento do PIB, destaca que a taxa de investimento do Brasil teve média de 17,8% do PIB entre 2011 e 2019, com mínima de 14,6% em 2017. Apesar de modesta recuperação para 16,8% do PIB em 2025, o Brasil fica abaixo da média da América Latina (19%) e muito distante dos mercados emergentes (pouco acima de 30% do PIB). O banco conclui que um dos fatores que inibem o investimento privado é o alto nível dos juros reais (descontada a inflação).

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Impacto dos juros reais

Citando dados da FGV, que mostram queda do investimento público líquido de 0,67% do PIB em 2024 para 0,37% do PIB em 2025, o estudo do Departamento de Economia do Santander, chefiado pela ex-secretária do Tesouro Nacional Ana Paula Vescovi, assinala que o investimento privado permanece moderado, sendo a principal razão pela qual a recuperação não se tornou mais robusta. As taxas de juros reais persistentemente elevadas, ligadas a pressões fiscais e à poupança estruturalmente baixa, continuam a restringir um aumento mais forte na formação de capital e a atrasar as decisões corporativas de expansão da capacidade. O banco observa ainda que boa parte da melhoria nas taxas de formação bruta de capital fixo está ligada às importações de plataformas de petróleo pela Petrobras, que agora se beneficia da alta do petróleo. O barril do Brent caía 1,50% às 14h30 (horário de Brasília), cotado a US$ 103,43.

O dilema dos juros

A observação do Santander é pertinente por oferecer um contraponto realista da questão fiscal. O ex-chefe da Secretaria de Política Econômica de Paulo Guedes, Adolfo Sachsida, que foi ministro de Minas e Energia no governo Bolsonaro, apresentou um esboço de diagnóstico da política fiscal que toca no crescimento do endividamento público sem considerar o peso do juro real, que realimenta o déficit e, ao conter o consumo e o investimento, desequilibra ainda mais a relação entre dívida e juros. Enquanto os juros reais estiverem acima de 10%, com a inflação em 12 meses entrando em maio na faixa superior a 4,50%, investir no país exige taxas de retorno incompatíveis com projetos empresariais normais, já que é possível ganhar de 8% a 10% ao ano em termos reais nas aplicações do mercado financeiro.