Geração Z afasta-se de Lula e ameaça projeto de reeleição do petista em 2026
Essenciais para a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, os jovens eleitores estão entre os grupos que mais desaprovam o governo atual. A base de apoio jovem do Partido dos Trabalhadores, tradicionalmente fiel ao petista, registra uma queda drástica de popularidade, impactando diretamente as ambições de reeleição de Lula para um quarto mandato.
Queda acentuada nas pesquisas de intenção de voto
Desde o fim da ditadura militar no Brasil, os eleitores jovens sempre formaram uma base segura para candidatos e partidos de esquerda. No pleito de 2022, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro, ele exibia o maior percentual de intenção de voto entre todas as faixas etárias, com 62% dos votantes com idades entre 16 e 24 anos declarando apoio ao petista em um eventual segundo turno contra Bolsonaro, segundo dados do Datafolha de março daquele ano.
Contudo, o cenário favorável mudou drasticamente na corrida ao Palácio do Planalto em 2026. No último levantamento do Datafolha, em março, o percentual de apoio a Lula entre os jovens, em um hipotético confronto com Flávio Bolsonaro do PL, caiu para 43%. Essa queda representa um desafio significativo para a campanha de reeleição do presidente.
Medidas do governo não sensibilizam o público-alvo
O governo Lula tem se esforçado para emplacar leis e programas sociais voltados para a juventude. Em 2024, foi lançado o Programa Pé-de-Meia, que recompensa alunos de baixa renda na rede pública pela frequência e conclusão do ensino médio. No mesmo ano, o Projovem foi relançado, focando na qualificação profissional de pessoas entre 18 e 29 anos que não concluíram o ensino fundamental.
Mais recentemente, em março de 2026, o governo instituiu o Observatório Nacional das Juventudes, ligado à Secretaria-Geral da Presidência, comandada pelo ministro Guilherme Boulos do PSOL. Lula também participou de um evento em comemoração aos 21 anos do ProUni, anunciando a ampliação da rede de cursinhos populares.
No entanto, essas medidas não parecem capazes de sensibilizar o público-alvo. Uma pesquisa da AtlasIntel divulgada em fevereiro de 2026 mostra que 73% dos eleitores com 16 a 24 anos desaprovam o governo Lula, muito acima da média da população geral, onde a rejeição é de 53%.
Desemprego e carga tributária alimentam desilusão
Para Yuri Sanches, diretor político da AtlasIntel, os jovens não têm a memória dos mandatos anteriores do PT, quando programas sociais como o Bolsa Família eram novidade e a economia andava em ritmo mais forte. “Esses jovens cresceram ouvindo sobre os governos petistas, e essa foi a primeira oportunidade de experimentar em primeira mão, só que o contexto é diferente”, afirma Sanches.
Uma das questões não resolvidas pelo governo é a falta de perspectiva de trabalho para os mais jovens. O país fechou 2025 com 11,4% de desemprego entre brasileiros de 18 a 24 anos, mais que o dobro da taxa nacional de 5,1%. Muitos ingressam como autônomos em funções como entregadores e motoristas de aplicativos, superando 180 mil trabalhadores nessa faixa etária, segundo o IBGE.
Além disso, a carga tributária tornou-se uma preocupação para o eleitor mais novo, especialmente com o imposto de importação sobre compras internacionais de pequeno valor, popularizado como “taxa das blusinhas”, que entrou em vigor em 2024. “Essa taxa consolidou a imagem de que esse governo só aumenta impostos, impactando também os mais pobres, eleitorado clássico do Lula”, diz Sanches.
Mudança ideológica e influência digital
A rejeição de Lula entre os jovens reflete um novo posicionamento ideológico. Uma pesquisa da AtlasIntel de novembro de 2025 mostrou que a Geração Z, dos nascidos entre 1997 e 2012, é mais alinhada à direita e à centro-direita do que a média da população. Isso se soma a um crescimento evangélico maior entre os jovens, conforme dados do Censo 2022 do IBGE.
O ambiente digital também desempenha um papel crucial. “A própria natureza do ambiente digital cria um campo mais favorável à revolta e indignação do que às discussões qualificadas sobre políticas públicas”, afirma Fabiano Garrido, diretor-executivo do instituto Democracia em Xeque. A oposição tem vantagem nessa arena, enquanto o PT tenta recuperar terreno.
Enfraquecimento do movimento estudantil e cansaço político
Outro grupo em que o PT vem perdendo adesão é o movimento estudantil, histórico reduto de formação de fileiras ligadas ao partido. A militância nas escolas e universidades foi suplantada na última década pela desilusão com a política tradicional e pelo discurso do empreendedorismo individual.
Para especialistas, a nova geração se vê constantemente bombardeada por debates políticos pautados por rixas ideológicas e encontra poucas respostas das autoridades a ameaças como a crise climática e a precarização do trabalho. “O jovem não se tornou necessariamente apolítico, mas há uma crescente percepção da política como um ambiente de brigas que perdeu o potencial para construir soluções práticas”, diz Ana Cláudia Santano, diretora-executiva da Transparência Eleitoral Brasil.
O PT, com uma bancada na Câmara com idade média próxima dos 60 anos, busca reverter esse cenário. A secretária da Juventude do partido, Júlia Köpf, afirma que estão preparando campanhas de jovens petistas para 2026 e apostando em manifestações para aprovar medidas como o fim da jornada 6×1.
No entanto, o vácuo de representatividade entre os jovens pode ter um impacto fatal nas urnas de outubro de 2026, ameaçando seriamente o projeto de reeleição de Lula e o futuro político do Partido dos Trabalhadores.



