O encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump terminou com um saldo político considerado positivo, mas ainda distante de produzir efeitos concretos para a economia. Essa é a avaliação de Patrícia Krause, economista-chefe da Latin America Coface, que vê na reunião um gesto importante de aproximação diplomática em meio a um cenário internacional cada vez mais sensível.
Encontro sem tensões públicas
Para a economista, o simples fato de não haver atritos públicos já representou um avanço significativo. "No campo político, o fato de não ter tido tensões, então já é algo positivo", afirmou Krause. No entanto, ela ressalta que, do ponto de vista econômico, o encontro ainda não entregou ganhos concretos. A reunião serviu mais para "abrir um caminho" e estabelecer um canal de diálogo entre os dois governos do que para resolver impasses históricos.
Expectativas do mercado
A leitura predominante entre analistas é de que a chamada "fotografia" do encontro teve peso relevante para reduzir ruídos políticos, mas ainda é insuficiente para trazer previsibilidade aos agentes econômicos. O mercado continua aguardando medidas objetivas que possam impactar positivamente as relações comerciais bilaterais.
Tensão tarifária persiste
O principal foco de tensão continua sendo a discussão tarifária entre Brasil e Estados Unidos. A economista lembrou que há divergências técnicas importantes sobre as tarifas aplicadas aos produtos americanos. Enquanto o governo brasileiro cita uma média de 2,7%, representantes dos EUA alegam que as barreiras são mais elevadas em determinados setores. Nesse contexto, ela destacou que o Brasil está inserido em um movimento mais amplo de investigações comerciais abertas pelos americanos contra dezenas de países dentro da chamada Seção 301.
Prazo de 30 dias é insuficiente
A definição de um prazo de 30 dias para negociações entre representantes comerciais foi vista como um sinal positivo, mas Krause avalia que o período pode ajudar a destravar temas considerados "espinhosos", embora reconheça que um mês não será suficiente para solucionar disputas acumuladas ao longo de décadas. Na avaliação dela, não existe hoje um desequilíbrio comercial tão expressivo que justifique uma escalada mais agressiva entre os dois países, o que abre espaço para uma negociação mais racional.
Volatilidade política e econômica
Outro ponto que chamou atenção na análise foi o alerta sobre a volatilidade. Para a economista, o ambiente político segue sujeito a mudanças rápidas, especialmente quando envolve Donald Trump. "A gente sabe como é que é a questão do Trump, mas é importante, talvez como um abrir um espaço, dado que a gente sabe que há em curso, não só contra o Brasil, mas vários outros países", afirmou. Ela lembra que cerca de 60 países sofreram com as sobretaxas americanas, e o que o encontro produz é uma calmaria momentânea. "A gente pode, de repente, ver a frente a imposição de novas tarifas e esse canal aberto agora pode evitar que o Brasil seja prejudicado, abre um caminho o que é positivo", alerta.
Impacto no mercado global
A volatilidade também apareceu no cenário internacional, especialmente no mercado de petróleo. O agravamento das tensões no Oriente Médio e os riscos envolvendo o Estreito de Ormuz aumentaram a pressão sobre os preços da commodity e ampliaram as incertezas globais. O impacto já chegou aos mercados financeiros, afetando bolsas, inflação e projeções econômicas. Em um ambiente assim, o encontro entre Lula e Trump ajuda a reduzir ruídos diplomáticos, mas ainda não elimina a cautela dos investidores diante de um cenário global cada vez mais imprevisível.



