O Desenrola 2.0, novo programa de renegociação de dívidas lançado pelo governo federal na última segunda-feira (4), promete reduzir débitos atrasados e ajudar a limpar o nome de milhões de brasileiros. O programa prevê descontos de 30% a 90%, conforme o tipo de dívida, e tem como público-alvo os trabalhadores que ganham até R$ 8.105 por mês. No entanto, para quem já esteve muito endividado e conseguiu se reorganizar, uma medida como essa tem efeito limitado.
Efeitos imediatos, mas não duradouros
Embora facilite a renegociação, o programa não enfrenta problemas centrais por trás do alto endividamento no país, como: o acesso fácil a linhas de crédito com juros elevados; a falta de educação financeira, inclusive entre pessoas instruídas; e o peso emocional da dívida para quem está endividado. Segundo especialistas, o novo Desenrola pode reduzir a inadimplência e ajudar consumidores a voltar ao sistema de crédito, mas seus efeitos devem ser mais imediatos do que duradouros.
“O problema da dívida não está apenas na taxa de juros. Ele vem do excesso de crédito disponível para a população”, afirma a planejadora financeira Myrian Lund. Para ela, o programa deveria ser associado a ações de educação financeira para gerar resultados mais permanentes na redução da inadimplência. “Para uma minoria, pode até ser positivo, porque vai liquidar a dívida e evitar novas quedas no endividamento. Mas, do ponto de vista estrutural, é apenas enxugar gelo”, completa.
A planejadora financeira Mônica Cardoso concorda e diz que as renegociações demandam alguma cautela por parte dos endividados, para que uma dívida resolvida agora não se transforme em outra no futuro. “Infelizmente, uma reserva não vai sanar o problema. É preciso cuidado para não se endividar de novo depois de um ou dois anos”, diz.
Histórias de quem já enfrentou dívidas
Ao g1, consumidores endividados e pessoas que conseguiram quitar seus débitos contaram suas histórias e compartilharam lições e estratégias para lidar com as dívidas. O empresário Delano Zonta, por exemplo, acumulava mais de R$ 230 mil em dívidas após anos de uso desenfreado do cartão de crédito e empréstimos sucessivos. Em um momento de sorte, ganhou R$ 35 mil na quina da Mega-Sena, mas o dinheiro foi todo usado para pagar parte dos débitos, e ele ainda devia mais de R$ 216 mil. “Aquele foi um dos piores dias da minha vida, com um sentimento enorme de fracasso. Mas também foi o dia em que decidi que não dava mais para continuar assim”, afirma. A partir daí, estudou finanças, organizou o orçamento e, com apoio da esposa, quitou todas as dívidas em quase quatro anos.
Crédito fácil como 'canto da sereia'
Segundo Wagner Pagliato, coordenador do curso de ciências contábeis da Unicid, casos de endividamento crônico costumam estar ligados à falta de alinhamento nas decisões de consumo e à pressão social para manter um padrão de vida acima da renda. Esse “sufocamento” financeiro pode afetar até a saúde. “O endividamento pode gerar estresse, ansiedade, sensação de culpa e até negação da situação financeira. A dívida deixa de ser apenas uma questão financeira e passa a envolver comportamento, hábitos e saúde emocional”, completa.
Eventos inesperados também podem desorganizar o orçamento. Fernanda*, uma das vítimas, teve o celular roubado e sofreu com compras no cartão de crédito e um empréstimo fraudulento de R$ 150 mil. Sua dívida de R$ 30 mil no cartão se transformou em R$ 112 mil. Ela avalia se inscrever no Desenrola 2.0. Já a secretária Tatiana* se endividou após um relacionamento mal-sucedido, assumindo empréstimos e parcelas de viagem. “Crédito fácil é o canto da sereia”, diz ela, que acumulou quase R$ 100 mil em dívidas.
Como sair do endividamento?
Segundo especialistas, o primeiro passo é fazer um “diagnóstico financeiro” — um levantamento detalhado das dívidas e da renda disponível para quitá-las. Em seguida, é preciso classificar os débitos conforme a taxa de juros, priorizando os mais caros. Além disso, é necessário mudar padrões de consumo e hábitos que levaram ao endividamento. A planejadora Mônica Cardoso, que já deveu mais de R$ 50 mil, conta que seu marido chegou a picotar o cartão de crédito. “É difícil: não dá para mudar 10 anos de hábitos ruins em 10 dias. Mas é preciso fazer sacrifícios e aprender a dizer não para se reerguer”, diz.
Especialistas também destacam a importância de contar com apoio profissional para definir o melhor momento de renegociar com os bancos. “É preciso entender que a negociação envolve várias etapas. Às vezes, você vai oferecer uma quantia ao banco que ele não aceita, e será necessário voltar para casa e continuar juntando”, afirma Myrian Lund. “O devedor precisa fazer o dever de casa. Não vai cair dinheiro do céu. É necessário fazer uma economia de guerra e tentar juntar o máximo possível para liquidar a dívida de uma vez”, completa.



