Do conhecimento ancestral ao negócio inovador: como as algas transformaram uma comunidade caiçara
Águas serenas, natureza exuberante e história em cada recanto. Este é o cenário de Paraty, no Rio de Janeiro, onde Aparecida Ayres, empreendedora caiçara de 47 anos, escreve uma história de inovação e resistência. À frente do Rancho Ayres, restaurante e centro de turismo pedagógico na Praia de São Gonçalo, ela carrega consigo mais de 150 anos de ancestralidade no litoral fluminense.
O maretório como estratégia de defesa e inovação
Foi neste território, ou melhor, neste maretório, que Aparecida encontrou uma poderosa estratégia de inovação e defesa contra a especulação imobiliária: as algas. Muito antes de se tornarem negócio, esses organismos marinhos já eram utilizados como adubo nas hortas do Rancho, no cuidado com árvores frutíferas e até para acalmar caranguejos durante a mariscagem - saberes transmitidos de mãe para filha.
A verdadeira transformação ocorreu em 2021, quando Aparecida e familiares participaram de um curso de algicultura e desenvolvimento territorial sustentável oferecido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Aprendemos desde a visão global do mercado até detalhes técnicos da produção", relata a empreendedora. "Mas o mais valioso foi entender como conectar nosso trabalho artesanal às metas da Agenda 2030 e compreender que o beneficiamento da alga é uma estratégia de conservação da biodiversidade e combate à crise climática."
Algas na Mesa: gastronomia sustentável com identidade caiçara
Da fusão entre conhecimento ancestral e formação acadêmica nasceu o Algas na Mesa Paraty, braço inovador do Rancho Ayres dedicado à gastronomia sustentável. O projeto introduziu a macroalga Kappaphycus alvarezii, cultivada em fazendas marinhas, que passou a integrar cosméticos, bebidas, doces e pratos salgados.
Entre as criações gastronômicas destacam-se águas e cachaças infusionadas, brownies, geleias doces e salgadas, antepastos, macarrão com vinagrete e moqueca. Porém, a verdadeira estrela é o tempuralgas, criação inspirada nas barracas japonesas da Festa do Divino de Paraty, mas com identidade caiçara. "Pensei que precisávamos ter nosso próprio tempurá, mas com nossa identidade e nosso cultivo", explica Aparecida.
Estruturação e crescimento com apoio estratégico
Com o projeto em movimento, o apoio à gestão e ao cooperativismo tornou-se fundamental. Através do Sebrae, Aparecida organizou sua microempresa com foco no comércio justo e valorização das pessoas envolvidas no processo. Oficinas de precificação, conservação de alimentos e inovação de mercado forneceram base sólida para o crescimento.
A empreendedora também participou de capacitação em atendimento ao cliente. "Nós não recebemos apenas clientes, recebemos pessoas", resume. O contato é direto, conduzido pela família, com troca de histórias e escuta atenta às necessidades de cada visitante.
Resultados impressionantes e reconhecimento internacional
Os números falam por si: antes da algicultura, o Rancho Ayres faturava aproximadamente R$ 6 mil mensais; com a inovação das algas, o valor saltou para R$ 36 mil. Atualmente, o negócio sustenta uma equipe de oito pessoas na Praia de São Gonçalo.
O trabalho de Aparecida ganhou alcance nacional e internacional através de palestras, consultorias e parcerias. Seu impacto rendeu indicação ao Prêmio Internacional de Alimentos de Niigata no Japão, vitória no Prêmio Mulheres das Águas na categoria Aquicultura Marinha, e participação como palestrante na COP30. Autoridades e veículos internacionais também voltaram seus olhos para essa iniciativa.
Territórios Empreendedores: quando o local se torna ativo estratégico
A trajetória de Aparecida exemplifica perfeitamente o conceito de Territórios Empreendedores, estratégia desenvolvida pelo Sebrae para fortalecer ambientes de negócios a partir das potencialidades regionais. "Não se trata de fórmula mágica, mas de processo colaborativo que melhora condições para empreender", explica Janaina Lopes Pereira Peres, coordenadora do núcleo de Territórios e Lideranças do Sebrae Nacional.
Atualmente, o Brasil conta com 115 Territórios Empreendedores, reunindo mais de 1.300 municípios e mobilizando cerca de 5.000 lideranças locais. Mais de 80 Agendas de Desenvolvimento estão em execução, com impactos concretos em áreas que vão da economia criativa à regularização fundiária.
Segundo Janaina, "a principal virada acontece quando o empreendedor deixa o isolamento. Em um território estruturado, o empresário passa a integrar uma rede de cooperação que amplia mercados, reduz riscos e acelera aprendizados". Este modelo também torna economias locais mais resilientes, incentivando diversificação de atividades e reduzindo dependência de fontes únicas de renda.
Para empreendedores interessados em conhecer ou criar Territórios Empreendedores em suas regiões, o Sebrae disponibiliza informações em suas unidades locais e portal oficial.



