ONU declara tráfico transatlântico de escravizados como crime mais grave contra humanidade
ONU: tráfico de escravizados é crime mais grave contra humanidade (29.03.2026)

Resolução histórica da ONU classifica tráfico transatlântico como crime mais grave

Uma decisão histórica da Organização das Nações Unidas (ONU) reacendeu o debate global sobre racismo, desigualdades e reparação histórica ao classificar oficialmente o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade. A medida, proposta por Gana - um dos países mais afetados pelo tráfico de africanos escravizados - recebeu apoio maciço de 120 nações, incluindo o Brasil, considerado o último país das Américas a abolir a escravidão.

Divisão internacional na votação

Na votação realizada na Assembleia Geral da ONU, países com passado colonialista demonstraram postura ambígua: Portugal, Espanha, França, Alemanha e Reino Unido optaram pela abstenção. Apenas três nações votaram contra a resolução: Estados Unidos, Israel e Argentina, criando um cenário geopolítico revelador sobre as diferentes perspectivas históricas.

Peso simbólico e consequências atuais

Para a fundadora e diretora executiva do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), Luana Génot, o peso simbólico da decisão está no reconhecimento das consequências atuais da escravidão. "É histórica porque convida a sociedade a parar de relativizar a questão racial e suas consequências até hoje", afirma Génot. "Quando você vê um menino negro jogando bolinha no sinal da rua e levanta o vidro do seu carro, essa é uma consequência até hoje. E isso não penaliza só o menino, mas penaliza toda a humanidade".

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Estruturação das desigualdades contemporâneas

Segundo a especialista, os efeitos da escravidão transatlântica ainda estruturam desigualdades no Brasil e no mundo de forma profunda e sistêmica. "A gente entende que o racismo e a escravidão transatlântica ainda criam consequências muito graves na dinâmica da sociedade", explica Génot. "Em termos de concentração de renda e poder, quem tem mais renda e quem tem mais poder? A população branca. Quem tem menos renda e menos poder? A população negra, a população indígena".

Dimensões históricas do tráfico transatlântico

O impacto histórico do tráfico transatlântico revela números impressionantes:

  • Entre os séculos 16 e 19, mais de 15 milhões de africanos foram escravizados
  • Transportados por colonialistas europeus para as Américas e o Caribe
  • Milhões morreram durante a travessia do Atlântico
  • O processo durou aproximadamente 400 anos

A resolução da ONU destaca justamente a escala monumental desse processo e os impactos duradouros que ele deixou sobre africanos e pessoas com ascendência africana em diferentes partes do mundo.

Debate sobre comparação entre tragédias históricas

A decisão, no entanto, também gerou críticas e debates acalorados. Há quem argumente que a classificação possa relativizar outras tragédias históricas, como o Holocausto. Especialistas que defendem a resolução afirmam que o objetivo não é estabelecer uma disputa entre sofrimentos, mas reconhecer a dimensão global e os efeitos prolongados do tráfico transatlântico de escravizados.

"Que, por ser o crime mais grave contra a humanidade, não há uma hierarquia de dores e opressões", esclarece Génot. "Não é que a escravidão e o tráfico transatlântico sejam mais graves, por exemplo, que o Holocausto. Não é. São dores que precisam ser tratadas, são problemas graves que precisam de políticas, precisam de tratamento e punições, inclusive".

O que a resolução realmente destaca

A resolução aprovada pela ONU enfatiza pontos fundamentais:

  1. A necessidade urgente de enfrentar injustiças históricas que ainda afetam africanos e pessoas com ascendência africana
  2. A ampliação do debate sobre como o passado escravista continua presente em desigualdades sociais, econômicas e raciais
  3. O reconhecimento formal da escala e duração do crime
  4. A criação de um marco para discussões sobre reparação histórica

O discurso do presidente de Gana, John Dramani Mahama, durante a sessão da Assembleia Geral da ONU em 25 de março de 2026, destacou a importância simbólica deste reconhecimento para as nações africanas e para a diáspora africana em todo o mundo.

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A decisão histórica estabelece um precedente importante nas relações internacionais e no tratamento das consequências do colonialismo, abrindo caminho para discussões mais profundas sobre justiça racial, equidade social e mecanismos de reparação que possam enfrentar as desigualdades estruturais herdadas de séculos de exploração humana.