ONU Mulheres no Brasil faz alerta urgente sobre os perigos da 'machosfera' e discursos de ódio online
A representante da ONU Mulheres no Brasil, Gallianne Palayret, emitiu um alerta contundente sobre os riscos representados pela chamada 'machosfera'. Esta rede de grupos e páginas, que frequentemente aborda temas de masculinidade com um viés misógino e violento, está sob crescente escrutínio. Palayret, que assumiu o cargo em janeiro deste ano, argumenta que, embora o sofrimento masculino seja um fator real que atrai indivíduos para esses espaços, ele não pode servir de justificativa para a propagação do ódio contra mulheres.
Promessa falsa e consequências graves
"O problema é que [a rede] promete uma cura, mas entrega isolamento, rigidez e hostilidade", afirmou Palayret em entrevista à Globonews. A advogada francesa destacou a recente trend 'caso ela diga não', que incita violência contra mulheres e se tornou alvo de investigação da Polícia Federal. Este caso exemplifica o potencial perigoso desses conteúdos, que mobilizam rapidamente grandes audiências nas plataformas digitais.
A necessidade urgente de espaços saudáveis e alternativas positivas
Gallianne Palayret defende com veemência a criação de espaços seguros e construtivos onde meninos e homens possam compartilhar suas inseguranças e vulnerabilidades sem serem cooptados por narrativas de ódio. "O que funciona melhor, das iniciativas que vemos no mundo, é oferecer suporte real", explicou. Ela lista como essenciais:
- Redes de pertencimento e apoio mútuo.
- Acesso a serviços de saúde mental específicos para homens.
- Programas de educação emocional desde a infância.
- Modelos positivos de masculinidade que não dependam do controle ou da dominação sobre as mulheres.
"Quando a gente melhora a vida dos meninos e dos homens, também melhora a segurança e a liberdade das mulheres. É um ganho coletivo", reforçou a representante da ONU.
Desafios no combate à misoginia digital e caminhos possíveis
Palayret reconhece a complexidade do desafio de regular conteúdos violentos online. Ela aponta a facilidade com que novas páginas são criadas para substituir as derrubadas e os interesses financeiros das grandes empresas de tecnologia como obstáculos significativos. "Este tipo de conteúdo mais violento, extremo, elas sabem que atrai muitas pessoas, e muitos jovens, desafortunadamente", lamentou.
Para enfrentar essa onda de ódio, a especialista propõe um conjunto de medidas:
- Fortalecimento de marcos legais contra a violência digital de gênero.
- Cobrança por maior transparência por parte das plataformas de redes sociais.
- Educação digital para jovens, capacitando-os a identificar discursos de ódio e manipulação.
- Cooperação tripartite entre governo, setor privado e sociedade civil.
Brasil discute nova legislação e enfrenta números alarmantes
Em linha com essas propostas, Palayret revelou que está em discussão com o governo brasileiro uma adaptação da Lei Modelo Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Digital de Gênero contra as Mulheres. Este instrumento jurídico, lançado pela OEA em dezembro de 2025, visa orientar os países das Américas na criação de leis específicas contra crimes virtuais.
A urgência de tais medidas é reforçada por dados alarmantes. O Brasil registrou um recorde histórico de feminicídios em 2025, com 1.470 mulheres assassinadas por esse motivo, conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Este cenário trágico sublinha a importância crítica de combater, tanto online quanto offline, as narrativas que alimentam e justificam a violência contra as mulheres.
