Mulher denuncia racismo após ser chamada de 'macaca' em quiosque de Olinda
Uma comerciante registrou denúncia por injúria racial após ser insultada por um funcionário de restaurante no Alto da Sé, em Olinda, Pernambuco. O caso ocorreu na manhã de sábado (21) e está sob investigação da Polícia Civil, que busca esclarecer as circunstâncias do episódio que deixou a vítima profundamente constrangida.
Constrangimento no local de trabalho
A vendedora Rute Vicente Ferreira chegou para trabalhar em seu quiosque de bebidas quando encontrou uma barra de ferro bloqueando a passagem. Ao remover o obstáculo, foi confrontada por Mário Rodrigo Preve, atendente do restaurante Art Grill localizado ao lado. O homem a chamou de "invasora" e, em tom de deboche, referiu-se a ela como "macaca", conforme relato da vítima às autoridades.
"Quando eu cheguei para trabalhar, já não pude entrar no meu trabalho porque tinha um ferro na frente do quiosque. Eu tirei o ferro e passei do mesmo jeito. Aí ele me chamou de 'invasora', dizendo que eu estava invadindo o restaurante. Fiquei calada. Depois, minha colega falou um negócio e eu ri. Aí ele falou: 'ó, a macaca rindo'", contou Rute em depoimento.
Reação da vítima e registro policial
Imediatamente após o ocorrido, a comerciante acionou a Polícia Militar, que enviou uma viatura ao local. Rute foi levada à Delegacia do Varadouro, onde registrou boletim de ocorrência por injúria racial. Esta foi a primeira vez que ela enfrentou uma situação de constrangimento por discriminação racial, fato que a deixou emocionalmente abalada.
"Eu não aceito, não, que eu luto pela minha cor. A minha cor é muito bonita. Eu sou bonita. Eu me acho bonita. Eu tenho que lutar, porque é racismo. E diziam que não tinha racismo... E a gente vendo racismo em Olinda. Eu fico muito triste", declarou a vendedora, destacando a importância de combater práticas discriminatórias.
Disputa por espaço turístico
Testemunhas do caso apontam que o conflito tem origem em uma disputa por espaço no Mirante da Sé, um dos principais pontos turísticos de Olinda, especialmente movimentado durante o período carnavalesco. Maria Eduarda Santana, colega de Rute no quiosque, prestou depoimento confirmando as hostilidades.
"É disputa de um restaurante e outro. E a gente trabalha praticamente na porta botando o cliente para dentro. Nesse dia, de manhã cedo, colocaram uma barra de ferro para ela não passar. Porque como é tudo conjugal é um restaurante em cima do outro", explicou Maria Eduarda.
Segundo as comerciantes, há pelo menos dois anos o funcionário e a proprietária do restaurante, identificada apenas como Alexandra, vêm provocando e debochando das funcionárias do quiosque. Mesmo após o registro policial, os acusados continuaram a constranger Rute em seu local de trabalho, conforme relatado pela vítima.
Investigações em andamento
A Polícia Civil informou que a ocorrência foi registrada pela 7ª Delegacia Seccional de Olinda, do Varadouro. As investigações já foram iniciadas e seguem em curso "até a completa elucidação do caso". O g1 tenta contato com a defesa do acusado e com o estabelecimento comercial envolvido para obter mais informações sobre o episódio.
Rute Vicente Ferreira segue trabalhando no quiosque, mas relata estar com os "nervos" abalados pela situação. "Ele continua a trabalhar. Ele debochando na minha cara, na frente, debochando. Agora estou com os 'nervos' por causa dessa mulher e desse homem. Ficam dizendo que [a denúncia] não vai dar em nada", afirmou a comerciante, demonstrando preocupação com a impunidade.
O caso evidencia a persistência do racismo no cotidiano brasileiro e a importância do registro policial para combater práticas discriminatórias. As autoridades reforçam que injúria racial é crime previsto em lei, com penas que podem incluir detenção e multa, dependendo das circunstâncias apuradas durante as investigações.



