Ex-secretária relata assédio sexual por ministro do STJ e entrega gravação como prova
Uma ex-secretária terceirizada do gabinete do ministro Marco Aurélio Gastaldi Buzzi, de 68 anos, prestou um depoimento emocionante ao Conselho Nacional de Justiça, denunciando uma série de assédios sexuais sofridos durante seu trabalho no Superior Tribunal de Justiça. A mulher, cuja identidade permanece em sigilo para proteger a vítima e as investigações, descreveu com detalhes os abusos e entregou uma gravação como evidência do caso.
Relato detalhado revela padrão de abusos
Em vídeo gravado para o CNJ, a ex-funcionária relatou que os episódios de assédio começaram com elogios aparentemente inofensivos, mas evoluíram para toques inapropriados em diferentes ambientes do gabinete. Designada como secretária, ela era responsável pelo funcionamento do espaço e atendimento ao ministro, sendo frequentemente a primeira a chegar e ficar sozinha com Buzzi.
"Tudo começou com elogios. 'Você está linda hoje'", contou a mulher, explicando como as abordagens se intensificaram. Em um episódio específico, Buzzi a chamou até sua sala reclamando de um barulho no cubículo anexo, mas quando ela entrou no espaço, o ministro a seguiu e passou a mão em suas nádegas.
Ambientes variados, mesmo padrão de comportamento
Segundo o relato, os abusos ocorreram em quatro ambientes diferentes do gabinete: na sala privativa do ministro, no cubículo de depósito, na biblioteca e no corredor interno. Em todos os casos, Buzzi agia em silêncio, criando situações para ficar a sós com a vítima.
"Em outro dia, eu estava na biblioteca do gabinete quando Buzzi chegou e, sem dizer uma única palavra, passou a mão em minhas nádegas novamente", descreveu a mulher. Ela destacou que os dias se tornaram uma tormenta, mas sua condição financeira - como única provedora da família - a obrigava a continuar no emprego.
Reação da vítima e busca por ajuda
A situação atingiu um ponto crítico quando Buzzi, em sua sala pessoal, agarrou e apertou com força a nádega da secretária. Nesse momento, ela reagiu, pegando o braço do ministro e afastando-o. "Me desculpa, me desculpa...", teria dito Buzzi após a reação.
Fragilizada pelas investidas constantes, a mulher procurou a chefe de gabinete para relatar o assédio. A conversa, que foi gravada e se tornou uma das principais provas do caso, não resultou em ações concretas contra o ministro. "Estou chocada", disse a assessora principal, prometendo apenas mudar o horário de trabalho da secretária como solução.
Consequências psicológicas e coragem para denunciar
Os abusos tiveram graves consequências para a saúde da ex-funcionária. Ela adoeceu, mergulhou em estado permanente de tristeza, desenvolveu problemas psicológicos e até perdeu parte da visão. Após pedir para deixar o gabinete de Buzzi, só encontrou coragem para denunciar formalmente quando leu a notícia sobre outra vítima do ministro - uma jovem de 18 anos.
"Não havia denunciado antes por medo de que as pessoas não acreditassem", explicou a mulher durante seu depoimento ao CNJ, chorando em diferentes momentos ao reviver a experiência traumática.
Repercussão e afastamento do ministro
O relato contundente da ex-secretária, somado à denúncia anterior da jovem de 18 anos, foi determinante para o afastamento de Marco Buzzi de suas funções no STJ. Ministros da Corte descreveram os atos como "revoltantes" e afirmaram que a permanência do magistrado no tribunal se tornou "insustentável".
"O STJ virou cena de crime. E de um crime abominável", relatou um dos ministros que votou pelo afastamento. Durante esta semana, três assessores de Buzzi confirmaram a versão da ex-secretária para ministros do STJ, fortalecendo as acusações.
O caso continua sob investigação do CNJ, com a gravação da conversa com a chefe de gabinete e o depoimento em vídeo servindo como evidências centrais. A ex-secretária espera que sua denúncia incentive outras vítimas a romperem o silêncio e que o sistema de justiça dê o devido tratamento a casos de assédio sexual no ambiente de trabalho.



