Justiça Federal libera entrada de família palestina retida há 6 dias no Aeroporto de Guarulhos
Justiça libera família palestina retida em aeroporto de SP

Justiça Federal concede liminar para entrada de família palestina retida em aeroporto de SP

A Justiça Federal de Guarulhos determinou na noite desta quarta-feira (22) a entrada imediata no Brasil de uma família palestina que estava retida há seis dias no Aeroporto Internacional de São Paulo. A decisão liminar em habeas corpus foi concedida após a defesa alegar constrangimento ilegal e situação de vulnerabilidade extrema.

Detalhes do caso e situação da família

Hani M. M. Alghoul e sua esposa Eitemad M.A. Alqassass Suhayla, junto com seu filho de um ano e meio, chegaram ao Brasil no dia 16 de abril com vistos de turismo válidos e imediatamente solicitaram refúgio. A entrada, no entanto, foi barrada pela Polícia Federal sem justificativa oficial apresentada.

Segundo o advogado Willian Fernandes, responsável pelo caso, a situação da família era especialmente delicada. A mulher está grávida de quatro meses com problemas de saúde diagnosticados, incluindo anemia que exigia transfusão sanguínea, enquanto a criança pequena apresentava problemas intestinais devido à mudança na alimentação durante o período de retenção.

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Fundamentação da decisão judicial

Na decisão, o magistrado considerou que o impedimento de entrada foi ilegal por falta de fundamentação adequada, já que a autoridade migratória não apresentou motivos concretos para a restrição. O juiz destacou especialmente:

  • A proteção a direitos fundamentais como dignidade humana
  • A necessidade de cuidados especiais com a saúde da gestante
  • A proteção integral à criança
  • As garantias previstas na Lei de Migração brasileira
  • O contexto de guerra na região de origem da família

Com base nesses argumentos, a Justiça reconheceu a urgência do caso e determinou que a Polícia Federal autorize a entrada da família no país imediatamente, proibindo qualquer medida de deportação ou repatriação até nova decisão judicial.

Atuação da Defensoria Pública da União

A Defensoria Pública da União também atuou no caso, solicitando autorização para representar a família e reforçando o pedido de urgência. Em seu documento, a DPU criticou a atuação da Polícia Federal, que apenas mencionou uma restrição prevista em portaria do Ministério da Justiça sem apresentar os fundamentos específicos da decisão.

"A Polícia Federal limitou-se a remeter o resultado da consulta sistêmica, sem enfrentar, em momento algum, o pedido expresso desta Defensoria quanto aos fundamentos materiais da restrição", afirmou o órgão no documento.

A DPU apontou ainda que a anotação da restrição foi registrada na mesma data da chegada da família ao Brasil, o que sugere inserção sem análise prévia adequada. O órgão levantou a possibilidade de que a informação pudesse ter origem em dados de autoridade estrangeira sem validação pelas instâncias competentes no Brasil.

Trajeto da família e contexto do pedido de refúgio

Segundo Faysa Daoud, presidente da ONG Refúgio Brasil, a família saiu de Gaza rumo ao Egito, onde conseguiu visto de turismo na embaixada brasileira. "Palestinos não têm visto humanitário para o Brasil, então a alternativa foi usar o visto de turismo", explicou Daoud.

O homem da família trabalha nos Emirados Árabes Unidos e havia ido visitar parentes em Gaza quando o conflito se intensificou, ficando preso na região até conseguir sair para o Egito na semana passada. Ao desembarcar no Brasil, a orientação recebida foi solicitar refúgio, direito que ainda aguarda análise pelas autoridades competentes.

Preocupação com padrão de casos similares

Paulo Illes, coordenador do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Migrante, manifestou preocupação com a recorrência de situações similares no Aeroporto de Guarulhos. "Temos acompanhado com preocupação o aumento dessas situações", afirmou Illes, destacando que casos como este já foram reportados ao Relator Especial sobre os Direitos Humanos dos Migrantes da ONU.

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Faysa Daoud, da Refúgio Brasil, foi mais enfática em sua crítica: "Eu acredito muito que está acontecendo muita falha. O Brasil é um país que tem tratado, desde depois da Segunda Guerra Mundial, e recebe muito bem refugiados, mas isso não está acontecendo agora, principalmente com os palestinos."

A Defensoria Pública pediu ainda que a Polícia Federal apresentasse, em até 48 horas, os fundamentos completos da restrição de entrada, incluindo a origem da informação e o suporte documental. Em nota, o Itamaraty informou que a decisão de impedir a entrada dos palestinos era de competência exclusiva da PF.