Acusações graves contra governo salvadorenho em audiência internacional
Um grupo composto por juristas internacionais de renome apresentou nesta terça-feira (10) um relatório contundente que acusa o governo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, de cometer crimes contra a humanidade durante sua intensa guerra contra as gangues criminosas. O documento foi exposto durante uma audiência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), realizada na Cidade da Guatemala, gerando forte repercussão internacional.
Denúncias detalhadas de violações sistemáticas
O Grupo Internacional de Especialistas para a Investigação de Violações de Direitos no Marco do Estado de Exceção em El Salvador, conhecido pela sigla Gipes, afirmou existirem bases razoáveis para acreditar que o regime de exceção implementado pelo governo resultou em graves violações. Ignacio Jovtis, diretor para a América Latina da organização InterJust, foi enfático ao declarar que as ações ultrapassam o combate ao crime organizado.
Entre as acusações específicas apresentadas no relatório de cinco especialistas estão:
- Encarceramentos em violação ao direito internacional, incluindo crianças
- Práticas sistemáticas de tortura e assassinatos
- Desaparecimentos forçados de cidadãos
- Casos de violência sexual contra detidos
- Perseguição política e atos desumanos em larga escala
Números alarmantes e resposta governamental
Os dados compilados a partir de fontes oficiais, relatórios independentes e testemunhos de vítimas revelam números preocupantes:
- Aproximadamente 90 mil pessoas detidas durante quase quatro anos de estado de exceção
- Cerca de 8 mil libertações por falta de provas concretas
- 403 mortes confirmadas sob custódia estatal, incluindo quatro crianças
- 540 casos registrados de desaparecimento forçado
Durante a audiência, a vice-chanceler salvadorenha, Adriana Mira, rejeitou veementemente todas as acusações. Em sua defesa, afirmou categoricamente que em El Salvador "não há desaparecimentos forçados nem nada que se assemelhe a isso". O governo mantém sua posição de que as medidas são necessárias para combater a violência extrema que assolava o país.
Contexto político e críticas à concentração de poder
A estratégia de segurança implementada por Bukele, cujo símbolo mais visível é uma megaprisão construída especificamente para membros de gangues, conseguiu reduzir os índices de violência a mínimos históricos em El Salvador. Esta conquista transformou o presidente de direita em uma das figuras políticas mais populares não apenas em seu país, mas em toda a América Latina.
Entretanto, especialistas em direito humanitário alertam para os riscos da concentração de poder. José Guevara, integrante do grupo que elaborou o relatório, destacou que "não se trata de casos isolados, mas de uma política na qual se cometem crimes em grande escala e de maneira sistemática". Críticos apontam que esta concentração permitiu a Bukele instaurar a reeleição sem limites a partir de 2025.
Perseguições a organizações da sociedade civil
O relatório do Gipes também denuncia campanhas de estigmatização e criminalização contra organizações da sociedade civil e veículos de imprensa independentes. A situação tornou-se tão crítica que a reconhecida ONG salvadorenha Cristosal, que recentemente denunciou a existência de 86 "presos políticos" no país, transferiu suas operações para a Guatemala alegando perseguição direta por parte do governo.
O documento conta com o apoio institucional de importantes organizações internacionais como a Federação Internacional de Direitos Humanos e a Comissão Internacional de Juristas, reforçando o peso das acusações. Enquanto o debate sobre direitos humanos versus segurança pública continua acalorado, a comunidade internacional observa com atenção os desenvolvimentos em El Salvador.
