Justiça ordena desocupação do clube Cruz da Esperança para construção de parque em São Paulo
Uma decisão judicial emitida na última quinta-feira (26) estabeleceu um prazo de 60 dias para que o time de futebol de várzea Cruz da Esperança desocupe sua sede, localizada no Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo. A área, situada ao lado do aeroporto de mesmo nome, tornou-se alvo de uma disputa legal após a concessão do terreno municipal à iniciativa privada, em 2025, para a implementação de um novo parque.
Antes do início das intervenções, a prefeitura precisa entregar o espaço completamente desocupado à empresa concessionária. Por esse motivo, a administração municipal solicitou à Justiça a reintegração de posse e a demolição das construções existentes no local.
Impacto cultural e esportivo do clube
O clube Cruz da Esperança, famoso por promover aos fins de semana o tradicional Samba do Cruz, utiliza uma área de aproximadamente 15 mil metros quadrados para suas atividades culturais e esportivas. Em sua determinação, o juiz Bruno Santos Montenegro alertou que o prazo de 60 dias deve ser entendido como tempo para organização e efetivação da desocupação, e não como uma extensão da ocupação irregular.
O magistrado também impôs uma multa diária de R$ 5 mil e autorizou o uso de força policial em caso de descumprimento da ordem judicial. O terreno de 385 mil metros quadrados, onde será construído o parque, é um reduto histórico do futebol de várzea paulistano desde a década de 1970.
Resistência do clube e negociações fracassadas
Dos seis times que mantinham atividades no local, um já foi despejado e outros quatro aceitaram um acordo para desocupar seus campos em troca de poderem utilizar o espaço no futuro. No entanto, segundo a prefeitura, o Cruz da Esperança se desligou da associação responsável pelas negociações e passou a ignorar as notificações sobre a desocupação.
O presidente da agremiação, Antônio de Jesus Marcos, conhecido como Tio Toninho, argumenta que o modelo proposto pela prefeitura e pela concessionária garantia apenas o uso do campo de futebol, colocando em risco a principal fonte de renda do clube. "A gente ficou sabendo que só ia ter o campo. A nossa cultura, o nosso samba, isso ia tudo por água abaixo. E é através disso que a gente mantém o time. A gente precisa do samba, precisa do bar", explicou.
Proposta de gestão compartilhada e preocupações
A proposta de gestão compartilhada do espaço após a concessão também não agradou ao clube. De acordo com Toninho, o Cruz da Esperança deixaria de ter controle sobre o campo, podendo utilizá-lo apenas em dias específicos. "Nos demais dias, o campo não vai ser nosso. A concessionária que está investindo vai querer retorno, então a gente perde esse espaço no dia a dia. E aí acaba a cultura", argumentou.
Fundado em 1958 por um grupo de taxistas da região da Casa Verde, o clube tinha um acordo com a Aeronáutica, antiga proprietária do terreno – em 2022, a posse da área foi transferida para o município. Diante da ameaça de despejo, o grêmio esportivo lançou um abaixo-assinado pedindo o reconhecimento como patrimônio cultural da cidade, que até esta segunda-feira (30) contava com 25 mil assinaturas virtuais.
Argumentos jurídicos e análise do Ministério Público
Em sua defesa na ação judicial, o time alegou que o espaço está historicamente vinculado à convivência comunitária na região, especialmente à cultura afro-brasileira. O Ministério Público deverá analisar, no prazo de 10 dias, se a área atende a requisitos de proteção e se a implantação do parque inviabiliza a manifestação cultural.
A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) argumentou nos autos que a permanência do Cruz da Esperança cria obstáculos diretos ao cumprimento de obrigações contratuais assumidas com a concessionária Campo de Marte, formada pelos mesmos donos da Allegra Pacaembu, que administra o estádio municipal.
"A persistência da ocupação irregular expõe o erário ao risco concreto de pleitos de reequilíbrio econômico-financeiro por parte da concessionária e de sanções contratuais, configurando situação que, se não revertida com brevidade, poderá tornar-se de difícil ou impossível reparação", diz trecho da argumentação jurídica apresentada pela prefeitura.
Investimentos e benefícios do novo parque
O contrato de concessão prevê um investimento estimado em R$ 202 milhões para a construção do Parque Campo de Marte. A empresa responsável poderá explorar o espaço comercialmente pelos próximos 35 anos. Procurada, a concessionária afirmou que manteve diálogo com todos que se dispuseram a conversar e que o novo parque será projetado para receber "tanto os que já frequentaram a área, quanto os que passarão a frequentá-la após a inauguração".
Já a Prefeitura de São Paulo defendeu que o novo espaço de lazer será uma referência na Zona Norte, beneficiando cerca de 300 mil pessoas. A disputa entre a preservação cultural e o desenvolvimento urbano continua, com o prazo judicial pressionando o clube a uma decisão rápida sobre seu futuro.



