Caso de desaparecimento de Laura completa 10 anos sem respostas e é denunciado à ONU
O desaparecimento da menina Laura Vitória completou uma década sem respostas, mas agora pode ganhar um desdobramento internacional de grande importância. O caso, que se tornou um dos mais emblemáticos do estado do Tocantins, foi levado à Organização das Nações Unidas (ONU) por uma entidade de defesa dos direitos humanos, que aponta graves falhas e omissões ao longo da investigação policial.
Angústia permanente na comunidade
Mesmo após dez longos anos, a ausência de Laura ainda causa profunda angústia na comunidade do setor Lago Sul, em Palmas, onde ela foi vista pela última vez em janeiro de 2016. A diarista Maria Lúcia de Oliveira resume o sentimento coletivo que persiste na região: “Uma família perdeu um filho, né? E não ser encontrado é muito angustiante, né? Eu gostaria muito que ela fosse encontrada, que ela tivesse uma vida feliz igual todas as crianças”.
Vida parada no tempo
Para a avó de Laura, Aurenita, a vida parou completamente no momento em que a neta saiu para comprar milho e nunca mais retornou ao lar. Ela relata com detalhes o desespero inicial e o esforço exaustivo para localizar a menina, muitas vezes realizado sem o apoio imediato das autoridades competentes.
“Naquele instante acabou tudo. Eu não tive ação para nada, só que andei bastante, procurei bastante. Acho que antes da polícia chegar aqui eu já tinha andado a Aureny III todinha, rua por rua, procurando. Você passa a noite acordada, andando de um lado para o outro. Às vezes você dorme, às vezes você não dorme”, desabafa a avó.
Ela complementa: “Aí eu tenho que lembrar no almoço, na janta, no café da manhã, na dormida. Saber se ela está dormindo em algum lugar quente, se está trocando de roupa, se está tomando banho, comendo”. O sentimento que predomina para ela é de completo abandono devido à falta de respostas concretas por parte das autoridades responsáveis.
Posicionamento oficial da Secretaria de Segurança Pública
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Tocantins informou oficialmente que as investigações sobre o desaparecimento de Laura Vitória estão sob a responsabilidade da Diretoria de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado. A pasta justificou a falta de detalhes públicos afirmando que o caso tramita sob rigoroso segredo de justiça.
A SSP negou veementemente que desaparecimentos de crianças não sejam tratados como prioridade máxima no estado e afirmou que, nos últimos trinta anos, apenas três casos de desaparecimento infantil seguem em aberto em todo o Tocantins. A secretaria destacou ainda que a grande maioria das crianças registradas como desaparecidas no estado são localizadas rapidamente, graças à atenção especial dada pelas autoridades a este tipo de ocorrência.
Denúncias de erros processuais e omissão estatal
A falta crônica de respostas levou o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca) a denunciar formalmente o caso à ONU, apontando possíveis equívocos técnicos graves e demora excessiva do Estado em reagir adequadamente ao desaparecimento. Segundo a entidade, protocolos cruciais de segurança foram negligenciados nos momentos iniciais das buscas.
“Além dessa omissão estatal com relação ao desaparecimento da Laura, nós temos também vários equívocos. Equívocos no momento, por exemplo, de acionar portos e aeroportos antes de 24 horas e não depois de 24 horas. Além do que, o inquérito policial foi instaurado 30 dias depois do desaparecimento da Laura”, comentou a secretária executiva do Cedeca, Mônica Brito.
A expectativa agora é que a pressão internacional force o Brasil a retomar a investigação com a prioridade máxima que o caso exige. “Nós esperamos que a ONU, através do seu grupo de trabalho, inste o Brasil para efetuar, para continuar de forma mais célere, de forma mais profunda, a investigação policial”, afirma a entidade com esperança renovada.
Fé e esperança que resistem ao tempo
Apesar do longo tempo decorrido e das múltiplas falhas apontadas, a fé inabalável e a esperança de um reencontro permanecem vivas no coração de dona Aurenita. “Eu sei que o Senhor não vai deixar eu morrer antes de eu ver ela de novo. E eu peço a Deus todo dia. Que o que tanto me mantém viva é minha fé. A minha esperança que me mantém viva é eu ter uma resposta e ela retornar de volta”, declara com emoção contida.
Caso não isolado: padrão de desaparecimentos
O desaparecimento de Laura Vitória não representa um caso isolado no estado. Em 2021, o sumiço da menina Safira Ferreira Lima, também ocorrido em Palmas, evidenciou novamente a falta de respostas efetivas por parte das autoridades. A família de Safira compartilha do mesmo sentimento de abandono e revolta relatado pela família de Laura.
“Eu me sinto fracassada porque a autoridade nunca me deu nenhuma resposta, nunca mandou nem me chamar aqui. Eu ainda tive coragem, que ainda fui lá por conta própria. Mas quando a gente chega lá, faz de conta que não tem nada e não tem resposta nenhuma para dar para a gente. Eu, pelo menos, me sinto humilhada num lugar desse aqui”, desabafa um familiar.
Compromisso oficial de investigação
A Polícia Civil do Tocantins reforçou publicamente o compromisso de explorar todas as linhas de investigação possíveis para a elucidação dos casos de desaparecidos que seguem em aberto no estado. Os casos de Laura Vitória e Saphira Ferreira Lima são os únicos em que há indicativo claro de participação de terceiros nos desaparecimentos, segundo informações oficiais.
O outro caso que permanece sem solução é o da pequena Ágatha Sophia Almeida Xavier, que desapareceu no rio Tocantins, em Tocantinópolis, no dia 14 de março deste ano. As três situações representam feridas abertas na sociedade tocantinense que clamam por respostas e justiça.



