A comunidade venezuelana residente em Dourados, no Mato Grosso do Sul, está em estado de apreensão após os ataques militares dos Estados Unidos à Venezuela. Muitos imigrantes relatam dificuldades para estabelecer comunicação com familiares que permanecem no país de origem, aumentando o temor sobre o desdobramento do conflito internacional.
Comunidade em alerta e dificuldade de contato
Segundo a Associação Dunamis Multicultural, entidade que representa os venezuelanos no município, mais de 5 mil imigrantes vivem atualmente em Dourados. A fundadora da associação, Rosana Daza, expressou a angústia coletiva. Ela mesma tem parentes na Venezuela e, até a manhã de quarta-feira, não havia conseguido estabelecer nenhum contato.
"De longe a gente vê o que está acontecendo, tendo família lá que continua lá e com a situação difícil que estava, agora piorou", afirmou Rosana. "Estamos falando de vidas de pessoas surpreendidas durante a madrugada com som de morte. Eu tenho parente ainda lá, mas ainda não fizeram nenhum tipo de contato".
A associação divulgou um comunicado oficial pedindo calma aos conterrâneos, mas o cenário de instabilidade nas comunicações e o risco de novos ataques mantêm o clima de tensão.
Os detalhes do ataque a Caracas
Os eventos que desencadearam a preocupação ocorreram na madrugada do sábado, 3 de janeiro de 2026. Uma série de pelo menos sete explosões foi ouvida em Caracas, capital venezuelana, em um intervalo de aproximadamente 30 minutos. Moradores relataram tremores, ruídos de aeronaves e correria nas ruas.
Parte da cidade ficou sem energia elétrica, especialmente nas áreas próximas à base aérea de La Carlota. Vídeos que circularam nas redes sociais mostraram colunas de fumaça saindo de instalações militares e aeronaves sobrevoando a capital em baixa altitude. O complexo militar Fuerte Tiuna, o maior do país, foi um dos locais atingidos por incêndios.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou a ação militar. Em suas redes sociais, declarou que os EUA realizaram um "ataque de grande escala" e que o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, junto com sua esposa, foi capturado e retirado do país por via aérea. Trump afirmou que o casal está a caminho de Nova York a bordo de um navio da Marinha norte-americana.
O paradeiro de Maduro era desconhecido até o anúncio. A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez, disse não saber onde ele está e exigiu uma prova de vida ao governo americano.
Desafios da imigração e o peso da distância
Rosana Daza, que vive no Brasil há cerca de seis anos, aproveitou para destacar as dificuldades estruturais que os migrantes venezuelanos já enfrentam em Dourados, agravadas agora pela crise internacional.
"Já temos bastantes anos aqui, praticamente seis anos com essa situação migratória, especificamente em Dourados, falta estrutura, faltam políticas públicas que possam dar um respaldo a essa população", explicou.
Ela ressaltou que incidentes como o ataque aumentam exponencialmente a preocupação de quem vive longe de seu país. "Depois do acontecimento de hoje a gente fica mais preocupado ainda, porque pode repercutir", completou, temendo uma escalada do conflito.
A instabilidade na Venezuela, portanto, ecoa diretamente na vida de milhares de venezuelanos que construíram uma nova vida no sul do Mato Grosso do Sul, mas que mantêm o coração e os laços familiares do outro lado da fronteira.