Pedidos de refúgio de cubanos no Brasil quase dobram em um ano, revelando crise migratória
Refúgio de cubanos no Brasil quase dobra em um ano

Pedidos de refúgio de cubanos no Brasil quase dobram em um ano

O número de solicitações de refúgio apresentadas por cidadãos cubanos no Brasil praticamente duplicou de um ano para outro, revelando uma crescente crise migratória que tem pressionado as autoridades brasileiras. Os dados oficiais mostram que os pedidos saltaram de pouco mais de 22 mil em 2024 para impressionantes quase 42 mil em 2025, um aumento alarmante que reflete as difíceis condições enfrentadas pela população cubana.

Rota perigosa através de coiotes

Muitos desses imigrantes chegam ao território brasileiro sem o visto obrigatório, utilizando rotas ilegais e extremamente arriscadas coordenadas por redes criminosas especializadas. Uma cubana de 47 anos, que hoje vive em situação legal no Brasil como refugiada, relata que precisou contratar coiotes para conseguir entrar no país em 2025. Por medo de represálias das quadrilhas e preocupada com a segurança da família que permaneceu em Cuba, ela preferiu não revelar sua identidade.

"Eu vendi minha casa em Cuba, mas não dava para ir para nenhum país. Só para a Guiana", conta a imigrante, que trabalhou temporariamente na Guiana antes de seguir para o Brasil. A rota mais comum oferecida pelos coiotes envolve um voo direto de Havana para Georgetown, capital da Guiana – país que não exige visto para cubanos – seguido por uma jornada terrestre de quase 600 quilômetros até Bonfim, em Roraima.

Operação policial desmantela rede criminosa

Em fevereiro de 2026, o Grupo de Investigação contra o Crime Organizado de Roraima prendeu um coiote identificado como cidadão venezuelano. Durante as investigações, a polícia descobriu hospedarias clandestinas onde os imigrantes eram mantidos em condições precárias. "Casas têm sido montadas como hotéis ou hostels para abrigar 30, 40 pessoas ao mesmo tempo, sem qualquer tipo de estrutura", afirma Wesley Costa de Oliveira, delegado titular da Draco-RR.

Crise econômica e políticas internacionais impulsionam migração

Os imigrantes cubanos atribuem a decisão de deixar seu país à grave crise econômica que assola Cuba, marcada por escassez de alimentos, combustível e energia elétrica. Além disso, as políticas anti-imigração implementadas pelos Estados Unidos durante o governo Trump redirecionaram muitos cubanos para o Brasil como alternativa. "A situação em Cuba está muito ruim. Falta gás, falta luz, não tínhamos comida. Decidimos apostar em uma vida melhor", relata uma cubana que preferiu não se identificar.

A maioria dos pedidos de refúgio é registrada na região Norte do país, especialmente em Roraima, mas há grupos que realizam as solicitações em outros estados, principalmente no Sul e Sudeste. Em São Paulo, um espaço localizado na região central oferece abrigo, alimentação e aulas de português para refugiados, demonstrando iniciativas de acolhimento.

Histórias de adaptação e desafios burocráticos

A eletricista Martha Gavialn Matos, que mora no Brasil há sete anos e já obteve a cidadania brasileira, tornou-se uma referência para seus compatriotas. Ela relata receber quase diariamente mensagens de cubanos interessados em saber como é a vida no Brasil. Martha destaca que a maioria não consegue entrar de forma legal devido à dificuldade em obter vistos. "Minha sobrinha, meu tio. Familiar pertinho de mim. Meu sobrinho. Foram todos negados", lamenta.

Apesar dos obstáculos, Martha se adaptou bem à vida no Brasil e encontrou oportunidades profissionais: "O Brasil abriu para mim a porta. Eu voltei de novo a fazer coisas que só eram um sonho, que só ficava na minha mente que eu queria conseguir. Mas aqui foi certo, aqui eu consegui".

Posicionamento do governo brasileiro

O Itamaraty afirmou que não adota restrições específicas à concessão de vistos para cidadãos cubanos, mantendo uma política de tratamento igualitário. O Ministério da Justiça, por sua vez, reiterou o compromisso histórico do Brasil com a defesa dos direitos humanos e o acolhimento de migrantes, destacando a longa trajetória do país nessa área.

Este cenário migratório complexo evidencia não apenas as dificuldades enfrentadas pelos cubanos, mas também os desafios logísticos e humanitários que o Brasil precisa enfrentar para gerenciar adequadamente esse fluxo crescente de pessoas em busca de refúgio e melhores condições de vida.