Brasileiros formam filas no Paraguai em busca de residência e novos horizontes
Brasileiros buscam residência no Paraguai em filas intermináveis

Brasileiros enfrentam madrugada em fila no Paraguai por residência

Marcelo Mendes, um arquiteto aposentado de 70 anos de Recife, passou a madrugada em uma fila em Ciudad del Este, no Paraguai, para conseguir documentos e tentar a residência no país vizinho. Ele abandonou o plano de se mudar para Portugal, onde sua filha mora, após descobrir oportunidades no Paraguai através de vídeos na internet. "Bem-vindos ao Paraguai", repetia alto o chefe do serviço de imigração enquanto caminhava entre cadeiras de praia e bancos de plástico, dirigindo-se a centenas de brasileiros que aguardavam sob o sol forte e no chão de terra vermelha.

Onda crescente de imigração brasileira

A fila, que quase dobrava a esquina, era composta por pessoas de todas as regiões do Brasil, muitas delas movidas por posições políticas e pela busca de uma vida com mais conforto e menos impostos. Delly Fragola, de 55 anos, dona de um salão de cabeleireiro em Anápolis, Goiás, chegou às 8h com a família, afirmando que o "Brasil não tem mais oportunidades" para seu negócio. No Paraguai, ela espera encontrar "mão de obra mais facilitada". Dilberto Wegrnen, empresário de 63 anos de Cascavel, Paraná, tomava cerveja enquanto esperava em um churrasco improvisado, criticando o governo Lula e elogiando a carga tributária menor do Paraguai.

Este grupo faz parte de uma onda crescente de brasileiros que querem se mudar para o Paraguai, chamando a atenção das autoridades locais. Desde o ano passado, o governo paraguaio promove mutirões itinerantes, como o Migramovil, para agilizar a emissão de documentos. Em 2025, o Paraguai concedeu 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros, com mais da metade (23,5 mil) sendo brasileiros. Para 2026, a expectativa é que o número seja ainda maior, com 9,2 mil autorizações emitidas apenas nos primeiros três meses do ano.

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Mudança de perfil e motivações políticas

Cornelio Melgarejo, chefe da imigração no departamento de Alto Paraná, observa uma mudança no perfil dos solicitantes. Há dois anos, 80% eram estudantes de Medicina em busca de faculdades mais baratas, mas agora aparecem muitos empresários e aposentados, "em busca da estabilidade econômica e política". Zena Cheraze, professora aposentada de 68 anos do Rio de Janeiro, percorreu 1,5 mil km de ônibus para tentar a residência, justificando que "nós, da direita, nos sentimos as pessoas mais oprimidas" no Brasil.

Roberta Viegas, que mora há um ano no Paraguai e oferece assessoria a interessados, calcula que "99% das pessoas que estão vindo são de direita". Ela se mudou com a família devido a preocupações com a educação dos filhos e a violência urbana no Rio de Janeiro. Entre os pais na fila, é comum encontrar defensores do homeschooling, como Marluize Ávila, de 42 anos do Paraná, que pretende educar os filhos em casa no Paraguai, onde a prática é mais aceita.

Vantagens econômicas e desafios

A carga tributária do Paraguai gira em torno de 14,5% do PIB, menos da metade da taxa brasileira de 32%. O sistema "10-10-10" simplifica a cobrança de impostos, com alíquotas de 10% para IVA, imposto de renda de pessoa física e empresas. Além disso, o esquema de "maquila" permite que fábricas importem matéria-prima quase sem impostos, atraindo marcas brasileiras como Lupo e Riachuelo. A energia elétrica também é mais barata, graças às hidrelétricas de Itaipu e Yacyretá.

No entanto, o economista Alexandre da Costa alerta para os desafios. O Paraguai tem uma baixa capacidade de investir em infraestrutura, saúde e educação devido à arrecadação menor. O sistema público de saúde é fragmentado, e a taxa de informalidade no emprego é de 62,5%, muito acima dos 37,5% do Brasil. Apesar disso, muitos brasileiros na fila, como Joraci de Lima, empresário de 61 anos do Paraná, defendem o modelo paraguaio como ideal, citando a "condição dos impostos no Brasil" como um fator decisivo.

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Vida no Paraguai e perspectivas futuras

Miriam Costa e Guilherme Lopes, um casal do Espírito Santo, se mudaram há três meses para Ciudad del Este, onde vendem romances eróticos online e aproveitam a tributação mínima para renda do exterior. Eles se consideram libertários e preferem um Estado menor, pagando um plano de saúde familiar por cerca de R$ 800. "Eu prefiro essa maneira de viver", diz Miriam, que não pretende voltar ao Brasil.

Dados do governo paraguaio mostram que, embora os pedidos de residência temporária tenham crescido, apenas 19% eram permanentes em 2025, comparado a 68% em 2020, indicando que muitos não ficam no país. Leonardo Ribeiro, vendedor de suco de 22 anos de São Paulo, já planeja voltar ao Brasil, afirmando que "não achei muita diferença do Brasil". Roberta Viegas orienta os interessados a conhecerem o país primeiro, pois "tem muita gente vendendo que o Paraguai é 'mil maravilhas', por interesse próprio".

A última estimativa brasileira, de 2023, aponta 263 mil brasileiros vivendo no Paraguai, a terceira maior comunidade no exterior. Enquanto alguns, como Marcelo Mendes, planejam vender suas casas no Brasil para se estabelecerem, outros ainda avaliam se a mudança vale a pena a longo prazo.