Produtividade do trabalho no Brasil cresce modestamente, com agropecuária como destaque, alerta BC
Produtividade do trabalho no Brasil cresce modestamente, diz BC

Produtividade do trabalho no Brasil apresenta crescimento modesto, com agropecuária na liderança

O crescimento da produtividade do trabalho na economia brasileira nos últimos seis anos foi classificado como "modesto" pelo Banco Central (BC). O relatório de política monetária, divulgado no fim do mês passado, aponta que esse avanço decorreu principalmente do desempenho favorável da produtividade na agropecuária e da realocação do emprego para atividades mais produtivas.

Agropecuária se destaca, enquanto outros setores mostram limitações

Quando se exclui a agropecuária, o desempenho da produtividade mostra-se ainda mais limitado: cresceu apenas 1,1% desde 2019, o que representa uma média de 0,2% ao ano. O BC ressaltou o impacto negativo de outros setores da economia, que contribuíram de forma mais modesta ou até negativa para a evolução agregada.

"A eventual persistência do avanço modesto da produtividade do trabalho, combinada às restrições ao crescimento da população ocupada – decorrentes da taxa de desocupação em patamar reduzido, da relativa estagnação da participação na força de trabalho e da desaceleração do crescimento da população em idade de trabalhar – poderia restringir o potencial de crescimento da economia", alertou o Banco Central.

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Evolução da produtividade nos últimos anos

De acordo com o BC, a alta relativamente modesta da produtividade do trabalho entre 2019 e 2025, com média de 0,6% ao ano, refletiu dinâmicas distintas:

  • Em 2020, observou-se forte elevação da produtividade, associada à pandemia, quando a redução da população ocupada superou a queda do Valor Adicionado Bruto (VAB).
  • Essa alta foi gradualmente revertida até 2022, quando a variação acumulada da produtividade desde 2019 ficou praticamente nula.
  • Em 2023, a produtividade apresentou alta expressiva, influenciada pelo aumento da produtividade da agropecuária em ano de safra recorde, passando a avançar em ritmo moderado nos dois anos seguintes.

Debate sobre redução da jornada de trabalho e fim da escala 6x1

O relatório do BC surge em meio ao intenso debate sobre o fim da escala 6x1 e a proposta de reduzir a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais, uma das principais bandeiras de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O setor produtivo, no entanto, manifesta resistência, argumentando que haverá aumento de custos, o que tende a ser repassado ao consumidor.

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, defende que o debate sobre a redução da jornada é uma necessidade cobrada pela sociedade brasileira. Ele afirmou que já há empresas antecipando essa discussão, reduzindo voluntariamente a jornada de seus trabalhadores. "Aí é lei, não haverá um acordo coletivo que leve à redução da jornada máxima. A partir da jornada máxima, empresas podem fazer adequações para menos, mas não podem para mais", explicou.

Posicionamento do governo e tramitação no Congresso

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala 6x1 deverá ser votada na próxima semana na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e até o fim de maio em plenário.

O ministro Guilherme Boulos (PSOL), da Secretaria-Geral da Presidência da República, afirmou que o governo segue disposto a enviar uma proposta sobre o tema para análise dos parlamentares. O governo defende as seguintes mudanças nas regras trabalhistas – sem redução de salário:

  1. Fim da escala 6x1 e implementação da 5x2, com dois dias de descanso semanais.
  2. Jornada de trabalho de 40 horas por semana, no máximo.

Preocupações do setor produtivo e impactos econômicos

Analistas e representantes do setor produtivo expressam preocupações com os possíveis efeitos da redução da jornada. Richard Domingos, diretor executivo da Confirp Contabilidade, avaliou que o debate sobre qualidade de vida é legítimo, mas pontuou que a economia brasileira passa por um momento de desemprego historicamente baixo, com dificuldade de contratação.

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"Mudar a jornada sem avaliar os impactos estruturais pode gerar efeitos econômicos e fiscais relevantes. Se a jornada diminui e o salário é mantido, o custo aumenta. Em um mercado já pressionado por escassez de profissionais, isso pode gerar inflação na mão de obra e parte desse aumento tende a ser repassado aos preços de produtos e serviços", afirmou Domingos.

Benito Pedro Vieira Santos, CEO da Avante Assessoria Empresarial, observou que alterações no regime de trabalho atingem operações que dependem de cobertura contínua, como indústria, logística, varejo e serviços, reverberando ao longo de cadeias de fornecedores e clientes.

Estimativa da CNI aponta queda no PIB

Segundo nota técnica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a proposta de redução da jornada para 40 horas semanais, com manutenção do salário, tem como resultado imediato o aumento do valor da hora trabalhada regular. A entidade estima que isso geraria uma queda de 0,7% no PIB brasileiro, o equivalente a uma perda de R$ 76,9 bilhões.

"O exercício mostra que, como consequência da elevação do custo do trabalho, tem-se, ao fim do processo de ajuste da economia, aumento generalizado dos preços da economia. Tanto de bens e serviços para os consumidores finais, como também de insumos e matérias-primas para as empresas, o que gera perda de competitividade", avaliou a CNI.