Ataques dos EUA à Venezuela podem aumentar migração para o Paraná, diz sociólogo
Ataques à Venezuela podem aumentar migração para o Paraná

Os recentes ataques militares dos Estados Unidos à Venezuela, confirmados pelo presidente Donald Trump na madrugada do último sábado (3), podem desencadear um novo aumento no fluxo migratório de venezuelanos para o Paraná. A avaliação é do sociólogo Márcio de Oliveira, coordenador do Projeto Atlas da Migração Internacional da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Paraná é um dos principais destinos da migração venezuelana

Segundo Oliveira, a instabilidade política e a tensão militar no país vizinho tendem a intensificar a chegada de venezuelanos ao estado paranaense. O Paraná ocupa atualmente a segunda posição entre os estados que mais recebem imigrantes da Venezuela, podendo alternar para a primeira posição dependendo do mês. A atratividade se deve principalmente às baixas taxas de desemprego e à demanda por mão de obra.

"O Paraná é o segundo – por vezes o primeiro, dependendo do mês – estado mais atrativo para a migração venezuelana. Então, a presença venezuelana no Paraná é muito forte, e há muita preocupação da comunidade com o que está acontecendo na Venezuela", afirmou o pesquisador.

Os ataques, que resultaram em pelo menos sete explosões ouvidas em Caracas em um intervalo de 30 minutos, segundo a Associated Press, levaram à captura e transferência do presidente Nicolás Maduro para Nova York. Este cenário de incerteza, na visão do sociólogo, deve contribuir para novos deslocamentos populacionais.

Estrutura de acolhimento e números expressivos no estado

Dados do Observatório das Migrações Internacionais revelam que mais de 87 mil venezuelanos residem atualmente no Paraná. Em todo o Brasil, esse número ultrapassa 575 mil. A capital Curitiba se destaca como o principal destino dentro do estado, sendo a cidade brasileira que mais recebeu venezuelanos pelo Programa Acolhida, do Governo Federal. Entre abril de 2018 e novembro de 2025, 8.930 migrantes passaram a morar na cidade por meio da operação.

Márcio de Oliveira atribui esse protagonismo a uma rede de apoio construída ao longo das últimas duas décadas. "A cidade de Curitiba, de 20 anos pra cá, se especializou no acolhimento. Há uma rede de proteção e acolhimento muito importante, que envolve organizações da sociedade civil, organizações religiosas, organizações institucionais da Prefeitura, do Estado e as universidades também", explicou.

Essa infraestrutura tornou a presença venezuelana cada vez mais visível no cotidiano curitibano. "Qualquer cidadão de Curitiba ou da Região Metropolitana, que vai ao supermercado, à padaria ou a um posto de gasolina, pode reconhecer que a língua espanhola é bastante falada", completou o coordenador.

Impacto nos fluxos e reação da comunidade migrante

Oliveira aponta que os desdobramentos da ofensiva estadunidense podem provocar movimentos migratórios em ambos os sentidos. Enquanto novas famílias podem buscar refúgio no Brasil, parte dos venezuelanos já estabelecidos no Paraná pode considerar retornar ao país de origem.

"Pode ter uma parcela de venezuelanos que estejam no Paraná que deseje retornar, mas uma parcela seguramente não vai retornar, porque já fez sua história na cidade de Curitiba, Região Metropolitana e interior", ponderou. Ele acredita, no entanto, que qualquer retorno em massa dependerá de uma definição política clara na Venezuela, processo que deve levar tempo.

Enquanto isso, a comunidade venezuelana no Paraná acompanha os acontecimentos com apreensão. No próprio sábado (3), dezenas de imigrantes se reuniram em frente ao prédio histórico da UFPR, em Curitiba, para uma manifestação. Com bandeiras e camisetas nas cores nacionais, cantaram o hino da Venezuela.

A engenheira civil Fabíola Ricardo, que atualmente trabalha em um frigorífico no Paraná e participou do ato, resumiu o sentimento de muitos: "Gostaria de retornar, mas temos que esperar que tudo se acalme, que tudo volte à normalidade. Mas o mais importante é que Maduro caiu".

Outros migrantes, como a professora Lívia Vargas González, de 48 anos, que vive em Foz do Iguaçu há quase uma década, mantêm contato diário com familiares em Caracas. Ela soube dos ataques por mensagens em grupos da família ainda de madrugada. Seu pai, que mora perto do centro da capital venezuelana, acordou com o impacto das explosões. "Meu pai conta que ele sentiu um impacto assim como se fossem foguetes, mas muito forte. Ele fala que ele nunca tinha escutado assim e que ele sentiu a vibração, mesmo estando no centro", relatou Lívia.

Diante deste cenário de profunda incerteza, o Paraná se prepara para ser, mais uma vez, um porto seguro para aqueles que buscam recomeçar suas vidas longe da instabilidade. A rede de acolhimento construída ao longo dos anos será posta à prova, enquanto o destino político da Venezuela segue indefinido.