Juros consomem R$ 118,9 bilhões em março e elevam dívida pública a 80,1% do PIB
Juros consomem R$ 118,9 bilhões em março; dívida sobe a 80,1%

Juros custam R$ 118,9 bilhões em março e pressionam dívida pública

As despesas líquidas com juros no Brasil atingiram R$ 118,862 bilhões em março de 2026, valor só superado pelos R$ 121,753 bilhões registrados em dezembro de 2025. O resultado foi agravado por perdas de R$ 6,5 bilhões em operações de swaps cambiais. No primeiro trimestre, os juros somaram R$ 266,690 bilhões, o equivalente a 8,28% do Produto Interno Bruto (PIB), um aumento expressivo de 37,6% em relação ao mesmo período de 2025, quando representavam 6,41% do PIB.

A dívida pública bruta já alcançou 80,1% do PIB, e o Bradesco projeta que feche o ano em torno de 83% do PIB. Economistas do mercado financeiro, no entanto, focam apenas no resultado primário (receitas menos despesas, excluindo juros), ignorando o peso crescente dos juros sobre as contas públicas. Em 12 meses, os juros somaram R$ 1,080 trilhão, um aumento de 15,5% no trimestre. Em março de 2025, os juros foram de R$ 75,2 bilhões, e o acumulado em 12 meses era de R$ 935 bilhões (7,80% do PIB).

Despesas crescem 49,2% e déficit primário se agrava

Os números de março não foram positivos, apesar do aumento de 7,5% na receita líquida (após transferências para estados e municípios). As despesas cresceram 49,2%, impulsionadas não apenas por gastos típicos de ano eleitoral, mas também pela antecipação do pagamento de precatórios e dívidas judiciais, que totalizaram R$ 74 bilhões no primeiro trimestre, movimento concentrado em julho de 2025. O resultado primário do setor público consolidado foi deficitário em R$ 80,7 bilhões em março, ante superávit de R$ 3,6 bilhões no mesmo mês de 2025. O governo central registrou déficit de R$ 74,8 bilhões, os governos regionais de R$ 5,4 bilhões e as empresas estatais de R$ 0,5 bilhão.

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Em 12 meses, o setor público consolidado acumulou déficit de R$ 137,1 bilhões, equivalente a 1,06% do PIB, 0,65 ponto percentual acima do déficit registrado até fevereiro. Para a consultoria 4intelligence, o trimestre foi marcado por crescimento real da receita líquida de 4,2%, com destaque para a arrecadação líquida do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), que cresceu 6,1% em relação ao mesmo período de 2025, refletindo a força do mercado de trabalho. Já as despesas cresceram 18,3%, influenciadas pela sazonalidade dos precatórios, enquanto as despesas discricionárias aumentaram 59,3%, associadas à rapidez de desembolsos típica de anos eleitorais.

Itaú vê impulso fiscal mais forte no 2º trimestre

O Itaú avalia que as receitas seguem resilientes no primeiro trimestre de 2026, mas as despesas continuam acelerando, com pressão de gastos obrigatórios, maior execução de discricionárias e antecipação de precatórios. Como resultado, o impulso fiscal tende a ficar mais forte no segundo trimestre, ao invés do terceiro, como esperado anteriormente. No mês, a surpresa negativa veio em grande parte do déficit dos governos regionais. O banco destaca ainda os impactos iniciais da reforma da renda, com custo associado à isenção de Imposto de Renda de cerca de R$ 18 bilhões no acumulado do ano e em termos anualizados, enquanto as compensações, especialmente sobre altas fortunas, ainda são inferiores a R$ 1 bilhão.

Para 2026, o Itaú projeta um déficit primário de 0,5% do PIB. Com a vinculação de receitas extraordinárias a potenciais cortes de impostos sobre combustíveis, o governo deve abrir mão de parte da melhora fiscal conjuntural proporcionada pelo choque externo e priorizar a mitigação do impacto doméstico da guerra no Oriente Médio.

Bradesco: dívida pode chegar a 83% do PIB

O Bradesco atribui a piora significativa do resultado primário em 12 meses à concentração do pagamento de precatórios pelo governo federal em março, enquanto no ano anterior esse pagamento foi concentrado em julho. O déficit nominal de março foi de R$ 199,5 bilhões, bem acima dos R$ 71,6 bilhões registrados em março de 2025. Os juros nominais do setor público consolidado, apropriados por competência, somaram R$ 118,9 bilhões em março de 2026, contra R$ 75,2 bilhões em março de 2025. Os swaps cambiais contribuíram negativamente em março (R$ 6,5 bilhões negativos), mas ainda contribuem favoravelmente para o resultado nominal acumulado em 12 meses, com 0,8% do PIB.

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A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) subiu 0,9 ponto percentual, e a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) subiu 1,3 ponto percentual, alcançando respectivamente 80,1% e 66,8% do PIB. Os juros nominais apropriados responderam pela maior parte da alta (+0,9 ponto percentual na DBGG e na DLSP), além do déficit primário, que contribuiu com +0,6 ponto percentual na DBGG. Por outro lado, o crescimento do PIB nominal contribuiu para reduzir em 0,5 ponto percentual a DBGG e em 0,4 ponto percentual a DLSP. Para o Bradesco, o resultado de março foi impactado pela mudança da sazonalidade de pagamento de precatórios, e a dinâmica de elevação da dívida pública deve continuar ao longo de 2026, com o resultado nominal pressionado. O banco projeta que a DBGG aumente mais de 4 pontos percentuais e encerre o ano próximo de 83% do PIB.