BTG Pactual inicia negociações para aquisição do Digimais, banco controlado por Edir Macedo
O BTG Pactual estabeleceu um acordo de intenção para a compra do Digimais, instituição financeira pertencente ao bispo Edir Macedo, conforme informações de fontes próximas ao assunto. O banco, que enfrenta uma prolongada deterioração financeira, já passou por diversas tentativas de reinvestimento e venda por parte de seu controlador.
Acordo incipiente e tratativas em andamento
De acordo com uma fonte com conhecimento direto do tema, o acordo ainda se encontra em fase inicial, com uma série de tratativas previstas para os próximos meses. Tanto o Digimais quanto o BTG Pactual optaram por não comentar oficialmente sobre as negociações quando procurados pela reportagem.
A conclusão do negócio depende de diversos fatores, incluindo um acerto com o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) para financiar a transação. Além disso, outras instituições financeiras interessadas no Digimais podem entrar na disputa pelo banco, com o patrocínio do fundo, apresentando propostas de compra concorrentes.
Contexto financeiro crítico do Digimais
Nos bastidores do mercado, a venda é vista com otimismo, pois poderia evitar uma eventual liquidação do Digimais, situação em que o FGC teria que cobrir integralmente os depósitos da instituição. A alienação para outro banco tende a reduzir as perdas do fundo, mesmo que parte do passivo ainda precise ser coberta.
Originalmente conhecido como Banco Renner, vinculado à família fundadora da rede varejista de roupas, o controle da instituição foi adquirido em 2020 por Edir Macedo, também proprietário da Record TV e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Com a aquisição, o banco foi rebatizado como Digimais, transferiu sua sede do Rio Grande do Sul para São Paulo e passou a ser comandado pelo bispo João Luiz Urbaneja.
Mudanças estratégicas e deterioração dos resultados
Inicialmente focado no financiamento de veículos no Rio Grande do Sul, o Digimais começou a diversificar sua receita sob nova direção, adquirindo carteiras de crédito e títulos e valores mobiliários. Segundo o balanço de junho de 2025, o banco possuía R$ 3,89 bilhões em ativos mobiliários, majoritariamente em fundos de investimento em direitos creditórios e imobiliários.
Recentemente, a instituição também passou a originar crédito consignado, estabelecendo contratos com a Prefeitura de São Paulo. No entanto, sua carteira de crédito de R$ 1,92 bilhão ainda é predominantemente composta por financiamento de veículos (R$ 1,36 bilhão), seguido por consignado (R$ 580 milhões).
A falta de um controle rigoroso sobre as carteiras de financiamento e a gestão ativa dos ativos mobiliários levou a uma deterioração significativa nos resultados financeiros. O controlador precisou injetar recursos no Digimais para cumprir as regras do Banco Central. Dados de setembro de 2025 revelam um prejuízo líquido de R$ 252,6 milhões no terceiro trimestre do ano anterior.
Alta rentabilidade dos CDBs e riscos financeiros
O estresse financeiro se manifestou na elevada rentabilidade dos CDBs (Certificados de Depósito Bancário) do Digimais, que atingiram 130% do CDI, valor consideravelmente acima da média do mercado, gerando alertas entre especialistas.
"Esse tipo de captação torna o custo de financiamento muito elevado e, no longo prazo, pode tornar a estrutura financeira praticamente insustentável, já que o banco precisa assumir riscos cada vez maiores na carteira de crédito para compensar esse custo de captação", explica o economista Tiago Velloso.
Tentativas de venda e mudanças na administração
Diante dos prejuízos acumulados, o bispo Edir Macedo decidiu colocar a instituição à venda. Em janeiro de 2025, Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, anunciou a aquisição do Digimais em troca de uma injeção de R$ 800 milhões, mas o negócio foi cancelado dois meses depois, com o avanço das investigações envolvendo Quadrado.
"Em situações semelhantes, eventuais soluções de mercado costumam envolver processos de reestruturação, incluindo a segregação de ativos e passivos ou a busca por investidores dispostos a aportar capital", comenta Marcos Bassani, analista de investimentos e sócio da Boa Brasil Capital.
Para facilitar a venda, Macedo transferiu a administração do banco para um executivo com maior experiência no setor. Desde o final de 2025, a instituição é comandada por Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil, com a missão de reorganizar as operações e conduzir a venda. O bispo Urbaneja permaneceu à frente do conselho de administração.
Batalha judicial envolvendo ativos do Master
Além dos desafios financeiros, o Digimais enfrenta uma disputa judicial relacionada a ativos originados pelo Banco Master. No início de 2025, o banco vendeu uma carteira de crédito para o fundo EXP1, gerido pela Yards Capital. No entanto, a gestora alega que parte dos ativos vendidos não existe e que o Digimais deveria devolver o valor correspondente.
No processo, o Digimais argumenta que os créditos existem, mas o repasse dos pagamentos estaria paralisado devido à situação do Master, que está em liquidação extrajudicial e sob investigações, sendo a instituição que originou esses créditos inicialmente. O fundo, por sua vez, contesta essa argumentação, afirmando que o contrato atribuiu ao Digimais "obrigações diretas e intransferíveis, incluindo a garantia de lastro dos créditos, a entrega da documentação comprobatória, o repasse tempestivo de todos os valores recebidos e a vedação expressa de qualquer interferência no fluxo de pagamentos".
Raio-X do Digimais no terceiro trimestre de 2025
- Prejuízo líquido: R$ 252,6 milhões
- Agências: 3
- Clientes: 199.026
- Fundação: 1981
- Concorrentes: Santander, Bradesco, Itaú, Banco do Brasil



