O economista franco-americano Gabriel Zucman afirma que a maior ameaça às democracias contemporâneas é a capacidade dos ultra-ricos de escapar das regras tributárias. Em entrevista ao programa Amarelas On Air, ele destacou que bilionários usam paraísos fiscais e outras estratégias para pagar proporcionalmente menos impostos do que a classe média e os trabalhadores.
Como os ultra-ricos escapam dos impostos
Zucman explica que parte da renda dos super-ricos não aparece nas bases tributáveis. Eles transferem patrimônio para empresas, holdings, fundos ou trusts, fazendo com que os ganhos permaneçam nessas estruturas. Nos Estados Unidos, Elon Musk e Jeff Bezos declararam rendas muito baixas em alguns anos, pagando quase nada de imposto. Bezos chegou a receber benefícios destinados à população de baixa renda.
Proposta de imposto mínimo de 2% sobre a riqueza
O economista defende uma tributação mínima de 2% sobre o patrimônio dos super-ricos. Ele argumenta que o imposto de renda não é suficiente, pois a renda pode ser artificialmente reduzida. A proposta incide sobre a riqueza, que é mais difícil de manipular. Zucman considera esse percentual um piso mínimo que qualquer democracia deveria apoiar.
O caso do Brasil
Zucman realizou um estudo em parceria com a Receita Federal brasileira. Descobriu que o 1% mais rico concentra 27% de toda a renda do país, um dos níveis mais altos do mundo. Ele critica a carga tributária elevada sobre a classe trabalhadora e a classe média, enquanto os ultra-ricos escapam. Para ele, impostos mais altos sobre os super-ricos forneceriam recursos para melhorar serviços públicos como educação e saúde.
Risco para a democracia
O economista alerta que a concentração de riqueza extrema também significa poder extremo, influenciando eleições, mercados e o debate público. Ele vê uma tensão permanente entre concentração de riqueza e democracia. No século XXI, acredita que a grande disputa será entre forças democráticas e oligárquicas.
Apoio popular versus bloqueio político
Na França, a proposta de taxa mínima de 2% teve apoio de 86% da população, mas foi bloqueada no Senado. Zucman atribui isso à influência dos bilionários sobre a política e o debate público. Ele lembra que, historicamente, elites econômicas conseguem atrasar mudanças, mas não impedi-las, como ocorreu com a criação do imposto de renda progressivo.
Resposta às críticas
Bernard Arnault, homem mais rico da França, disse que as ideias de Zucman arruinarão o país. O economista rebate: a riqueza dos bilionários franceses cresceu 10% ao ano nas últimas quatro décadas; com o imposto de 2%, cairia para 8%, ainda acima dos 4% da população em geral. Ele nega ser ativista e afirma que seu papel é fornecer dados para a sociedade decidir.
Fuga de capitais
Zucman propõe um modelo intermediário para evitar a fuga de capitais: se uma pessoa acumulou riqueza em um país e se mudar para um paraíso fiscal, deve continuar pagando impostos ao país de origem por um período limitado, como cinco, dez ou quinze anos.



