Saída dos Emirados Árabes da Opep pode marcar declínio irreversível, diz especialista
Saída dos EAU da Opep pode ser o início do fim, avalia professor

A decisão dos Emirados Árabes Unidos (EAU) de deixar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) nesta semana reacendeu o debate sobre o futuro da organização. O movimento ocorre em meio a tensões no Golfo Pérsico e dificuldades logísticas relevantes para o comércio de petróleo.

Perda de relevância e coesão interna

Para Igor Fuser, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e especialista em geopolítica energética, o episódio pode ter implicações estruturais duradouras para o cartel. A saída dos EAU não é um evento isolado, mas parte de um processo mais amplo de perda de relevância do grupo ao longo dos últimos anos, segundo o professor. “A retirada dos Emirados Árabes Unidos pode ser o início do fim da Opep”, diz ao destacar que a organização já vinha enfrentando dificuldades para manter coesão interna diante de interesses divergentes entre seus membros.

O esvaziamento da organização vem ocorrendo de forma gradual há anos, com a saída de integrantes relevantes, como Catar e Angola, e a perda de capacidade de coordenação. Países que ainda fazem parte do grupo, como a Venezuela, também enfrentam sanções econômicas que reduzem sua participação efetiva, o que contribui para enfraquecer o poder coletivo da entidade.

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Transformação do mercado global de energia

Outro fator que leva ao enfraquecimento da Opep é a transformação do mercado global de energia, especialmente com o avanço da produção de petróleo não convencional nos Estados Unidos. Na avaliação de Fuser, isso reduziu a dependência americana em relação ao petróleo do Oriente Médio e ampliou a influência de Washington sobre os preços internacionais. “Os EUA influenciam no preço do petróleo de uma maneira como não faziam antes”, diz.

Grandes produtores fora do núcleo tradicional da Opep passaram a ter papel mais relevante no mercado, sem necessariamente seguir as diretrizes do cartel. Exemplos disso são países como Rússia e Brasil, que são aliados da organização na Opep+ mas não se submetem às cotas formais de produção, o que reduz a eficácia das decisões coletivas e amplia a competição entre exportadores.

Incerteza sobre o futuro do petróleo

Para além das mudanças conjunturais, Fuser chama atenção para uma questão estrutural: a crescente incerteza sobre o futuro do petróleo como principal fonte de energia. “A certeza que antes existia quanto ao negócio petroleiro no longo prazo desapareceu”, diz, ao apontar o impacto da transição energética nas estratégias dos países exportadores.

Nesse contexto, a expectativa de crescimento contínuo da demanda por petróleo — que sustentava a lógica de atuação da Opep — vem sendo substituída por um cenário de possível estagnação e posterior queda. O especialista destaca que projeções indicam a aproximação de um pico de demanda global. “Em menos de uma década se chegará ao chamado pico da demanda”.

Com o iminente declínio do petróleo enquanto principal fonte de energia do mundo, na avaliação do professor, a própria lógica de funcionamento do cartel tende a perder sentido, com países priorizando estratégias individuais para maximizar receitas. “As cotas de exportação da Opep não valerão mais nada e os países exportadores vão vender o máximo possível, num salve-se quem puder”, diz, ao descrever um cenário de maior competição.

Antecipação dos Emirados Árabes

Os Emirados Árabes Unidos, nesse contexto, estariam se antecipando a essa mudança estrutural ao buscar ampliar sua produção, com planos de elevar a capacidade de cerca de 3 milhões para 5 milhões de barris diários, movimento que enfrentava resistências dentro do grupo.

Fuser também lembra que a Arábia Saudita concentra hoje grande parte do poder de decisão dentro da organização, o que reflete o enfraquecimento de outros membros tradicionais. “Dificilmente a Opep vai recuperar a sua força e a maior dúvida é se a organização vai desmoronar rapidamente ou se vai passar ainda por uma longa agonia”, diz.

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