A economia brasileira perdeu ritmo em março e reforçou os sinais de desaceleração observados ao longo do primeiro trimestre de 2026. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado nesta segunda-feira, 18, considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), recuou 0,7% na comparação com fevereiro, já descontados os efeitos sazonais.
Setor de serviços lidera queda
O resultado foi pressionado principalmente pelo setor de serviços, que caiu 0,8% no período. A agropecuária e a indústria também apresentaram retração de 0,2% cada. Excluindo o setor agropecuário, o IBC-Br teve queda ainda mais intensa, de 0,9% no mês.
Apesar do recuo em março, o indicador ainda acumulou alta de 1,3% no trimestre encerrado no mês e avanço de 1,8% em 12 meses.
Análise de especialistas
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, os números mostram que a economia continua crescendo, mas já sente os efeitos do ambiente mais restritivo. “O IBC-Br divulgado hoje mostra que a economia perdeu força em março, com queda relevante na comparação com fevereiro, mesmo depois de um começo de ano mais positivo. Apesar de o primeiro trimestre ainda indicar crescimento, o dado mais recente acende um sinal de atenção, porque mostra que o ritmo está desacelerando”, afirma.
Segundo ele, o setor de serviços, que vinha sustentando boa parte da atividade econômica nos últimos meses, foi um dos principais responsáveis pela perda de fôlego. “Na prática, o número sugere que a economia continua crescendo, mas de forma menos intensa e mais sensível aos juros altos e às incertezas do cenário atual, o que reduz a chance de surpresas positivas mais à frente e reforça um ambiente que exige cautela nas projeções”, explica.
Juros altos e inflação pressionam
A leitura também é compartilhada por André Matos, CEO da MA7 Negócios, que avalia que os dados setoriais já indicavam uma desaceleração da atividade econômica no fim do trimestre. “O IBC-Br veio em linha com o que os indicadores setoriais já vinham sinalizando, com a atividade mostrando claros sinais de fadiga no fim do primeiro trimestre. Quando se olha a fotografia completa de março, fica evidente que a economia perdeu fôlego”, diz.
Segundo Matos, a combinação de indústria praticamente estagnada, retração dos serviços e juros elevados mostra que a política monetária restritiva começa a produzir efeitos mais claros sobre a demanda. “Para um indicador que tem o setor de serviços como quase metade da sua composição, esse mix é suficiente para confirmar que a Selic em 14,50% está exercendo seu papel restritivo sobre a economia, exatamente como o Copom descreveu na ata da última reunião”, afirma.
O economista avalia, porém, que o cenário se torna mais delicado porque a desaceleração da atividade acontece em meio à persistência da inflação. “É um ambiente de estagflação branda, em que o Banco Central não tem espaço para acelerar cortes de juros mesmo diante de uma economia mais fraca, porque o choque do petróleo mantém pressão sobre combustíveis, fretes e fertilizantes”, explica.
Mercado de trabalho ainda resiliente
O mercado de trabalho ainda resiliente tende a evitar uma perda mais abrupta de dinamismo econômico. “O desemprego em mínimas históricas e o avanço da renda real ainda sustentam parte do consumo, o que impede uma desaceleração mais forte no curto prazo”, afirma.
Para os investidores, o cenário reforça a perspectiva de juros elevados por mais tempo e mantém a renda fixa atrativa diante da cautela com setores mais cíclicos da bolsa.



