Nova tarifa global de Trump atinge 15% com mudanças significativas para o Brasil
A partir desta terça-feira (24), entra em vigor a nova tarifa global de 15% sobre produtos importados pelos Estados Unidos, instituída pelo presidente Donald Trump. A medida ocorre após a Suprema Corte americana derrubar parte do chamado "tarifaço" aplicado a mais de 180 países em abril, resultando em duas alterações importantes que começam às 00h01 no horário de Washington.
Decisão da Suprema Corte anula tarifas anteriores
A primeira mudança significativa é que a decisão judicial anula todas as tarifas aplicadas por Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). A segunda alteração estabelece que a nova tarifa global de 15% passa a valer simultaneamente. Contudo, uma ampla lista de produtos estratégicos permanece isenta da sobretaxa, incluindo itens importantes da pauta comercial brasileira.
Impacto direto nas exportações brasileiras
O Brasil estava entre os países com as tarifas mais altas aplicadas por Donald Trump. Com a decisão da Suprema Corte, caem duas taxas específicas: as chamadas tarifas recíprocas de 10% anunciadas em abril do ano passado e a sobretaxa de 40% sobre diversos produtos brasileiros, anunciada por Trump em carta enviada ao presidente Lula em julho de 2025.
Entretanto, Trump instituiu uma nova tarifa com base na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, que permite a criação de uma tarifa temporária de até 15% por 150 dias antes de se tornar obrigatória a aprovação pelo Congresso americano.
"Para a maioria dos produtos, permanece a tarifa normal do item, em vigor antes das medidas de 2025, acrescida do novo adicional temporário global de 15%", afirma o especialista em comércio exterior Jackson Campos. "As exportações brasileiras de aço e alumínio para os EUA continuam sujeitas a alíquotas de 50%, que se somam aos 15% recém-anunciados, mantendo elevado o custo desses insumos", complementa o especialista.
Produtos brasileiros isentos da nova tarifa
As isenções valem para todos os países, mas itens estratégicos da pauta comercial brasileira ficam livres da sobretaxa de 15%. A lista inclui tanto commodities quanto produtos manufaturados de maior valor agregado. O vice-presidente Geraldo Alckmin destacou alguns deles: "Zerou para combustível, carne, café, celulose, suco de laranja, aeronaves".
Os principais setores com produtos isentos incluem:
Energia e combustíveis
- Petróleo bruto: isento nas diferentes classificações de densidade
- Óleo combustível (fuel oil) e outros óleos combustíveis
- Querosene de aviação (jet fuel): combustível utilizado em aeronaves
Agroindústria
- Carne bovina: cortes frescos, refrigerados ou congelados
- Café em grão: café torrado, não torrado, descafeinado ou não
- Suco de laranja: congelado, concentrado ou não
- Fertilizantes: nitrogenados, fosfatados, potássicos e de origem animal/vegetal
- Cacau e derivados: grãos, cascas, pasta, manteiga e pó de cacau sem açúcar
Aeronaves e peças
- Aviões civis: aeronaves de todos os pesos (não militares)
- Motores aeronáuticos: turbojatos, turbopropulsores e motores de ignição
- Peças e partes: componentes de motores, sistemas de navegação, simuladores de voo
Mineração e siderurgia
- Alumina calcinada: classificada como óxido de alumínio
- Ferro-ligas: incluindo ferromanganês, ferrossilício, ferrocromo
- Minérios de outros metais: cobre, níquel, cobalto, zinco, estanho e titânio
Tecnologia e Indústria
- Semicondutores: artigos e dispositivos semicondutores específicos
- Eletrônicos selecionados: processadores, memórias, unidades de processamento
Além da ampla lista de exceções, que inclui minerais críticos, também ficarão isentos produtos do Canadá e do México que estejam em conformidade com o Acordo EUA-México-Canadá (USMCA). Têxteis e itens de vestuário de países que integram o tratado CAFTA-DR — como Costa Rica e República Dominicana — também terão tarifa zerada.
Estratégia por trás das isenções
Jackson Campos, especialista em comércio exterior, afirma que a decisão de Trump é estratégica e segue a lógica de manter a tarifa como instrumento de negociação com o menor custo interno possível. "O objetivo é calibrar a medida para gerar pressão comercial sem provocar danos relevantes à própria economia dos EUA", diz. "Ao isentar itens críticos, ele reduz o risco de repasse imediato aos preços domésticos, evita rupturas em cadeias produtivas integradas e preserva setores considerados estratégicos", acrescenta.
A lógica por trás das isenções inclui:
- Energia e combustíveis influenciam custos logísticos e a inflação
- Insumos do agro, como fertilizantes, afetam a produção de alimentos
- Aeronaves e peças entram pela alta integração industrial e pelo impacto sobre a aviação
- Minerais e insumos, como alumina e ferro-ligas, são essenciais para a indústria
- Semicondutores e equipamentos associados são prioridade tecnológica e de segurança econômica
A nova configuração tarifária representa um cenário complexo para as relações comerciais internacionais, com impactos diferenciados por setor e país, mantendo o Brasil em posição privilegiada em alguns segmentos estratégicos enquanto enfrenta desafios em outros.