Imóveis vazios em Sorocaba e Jundiaí poderiam abrigar 100 vezes mais famílias sem-teto
Imóveis vazios em SP poderiam abrigar 100 vezes mais sem-teto

Desproporção alarmante entre imóveis vazios e famílias sem-teto em cidades paulistas

Um levantamento exclusivo do g1, baseado em dados do Censo 2022 do IBGE e do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, revela uma realidade preocupante nas cidades de Sorocaba e Jundiaí, no interior de São Paulo. Para cada família que vive em situação de rua, existem dezenas de imóveis residenciais completamente desocupados, evidenciando que o problema central não é a falta de moradias, mas sim as barreiras de acesso a elas.

Números que impressionam e revelam desigualdade estrutural

Em Sorocaba, a proporção é de 40 imóveis residenciais vazios para cada núcleo familiar sem-teto. Em Jundiaí, a situação é ainda mais crítica, com 57 casas ou apartamentos desocupados para cada família em situação de rua. Quando analisados em conjunto, esses imóveis vazios nas duas cidades poderiam abrigar quase 100 vezes o número atual de famílias sem-teto, segundo os cálculos realizados.

Os dados utilizados consideram apenas famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), o que significa que os números reais podem ser ainda maiores, já que muitas pessoas em situação de rua não estão cadastradas no sistema. Esta sub-representação torna o cenário ainda mais preocupante do que os números oficiais sugerem.

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Especulação imobiliária como obstáculo ao direito constitucional

Para a doutora em geografia humana e professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em Sorocaba, Rosalina Burgos, a discussão sobre habitação precisa ser compreendida dentro de um contexto macro social. "Se ela não estiver diretamente atrelada às outras secretarias, às outras políticas de outros setores, ela não vai funcionar", afirma a especialista.

Segundo a análise da professora, o problema fundamental não é a escassez de casas, mas sim a especulação imobiliária que mantém propriedades vazias como investimentos, aguardando valorização para gerar lucros futuros. "Por que tantas unidades vazias? Porque isso é especulação. É a possibilidade futura de lucro", explica Burgos, destacando como essa dinâmica contribui para a expansão urbana desordenada e a segregação socioespacial.

Soluções práticas: ocupação e reforma do existente

A arquiteta e urbanista Sandra Lanças, pesquisadora do Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Habitação de Interesse Social do Estado de São Paulo (CCD HIS SP), aponta que manter imóveis vazios, especialmente nas áreas centrais das cidades, gera múltiplos problemas:

  • Insegurança urbana
  • Desvalorização do entorno
  • Desperdício de infraestrutura já instalada (redes de água, esgoto, energia)

A solução proposta pela especialista é reformar esses prédios existentes para oferecer moradia a trabalhadores e jovens, reduzindo deslocamentos e aproveitando a estrutura já disponível. "Não faltam imóveis já construídos que poderiam ser utilizados de alguma maneira social. Isso seria um ciclo virtuoso", defende Lanças.

A pesquisadora enfatiza que a construção civil precisa "aprender a reciclar espaços", o que traria benefícios tanto ecológicos quanto econômicos. "Não haveria necessidade de tantas construções novas, materiais novos e etc. A construção civil precisa aprender a reciclar espaços, e isto livra muito tempo, dinheiro e energia para ser investido em outras melhorias para a sociedade".

Demanda real e iniciativas em andamento

Na realidade concreta de Sorocaba, a Prefeitura local informou que mais de 101 mil pessoas se cadastraram no programa habitacional "Casa Nova Sorocaba", evidenciando a enorme demanda por moradia acessível na região. No entanto, apenas dois empreendimentos de interesse social estão em estágios avançados de desenvolvimento:

  1. Residencial Morada dos Eucaliptos, com previsão de entrega até 2028
  2. CDHU Jardim Eliana, com obras autorizadas para 2026

Paralelamente, o Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Habitação de Interesse Social do Estado de São Paulo (CCD HIS SP) trabalha no desenvolvimento de um sistema que, até 2029, deverá auxiliar órgãos públicos e empresas do setor na identificação precisa das necessidades habitacionais no estado, contribuindo para decisões mais assertivas.

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Direito à moradia digna: mais do que um teto

É importante destacar que o direito à moradia digna, garantido pelo artigo 6º da Constituição Federal, vai além da simples posse de um teto. Inclui condições de segurança, salubridade e dignidade humana que muitas vezes não são contempladas mesmo quando as pessoas têm onde morar. A ausência dessas condições básicas representa riscos concretos para a saúde e o bem-estar da população mais vulnerável.

Esta reportagem integra uma série especial produzida pelo g1 Sorocaba e Jundiaí sobre a Campanha da Fraternidade 2026, que tem como foco central o direito à moradia e busca discutir os desafios e iniciativas voltados para garantir condições dignas de habitação às famílias brasileiras. Os dados apresentados provocam reflexões urgentes sobre políticas públicas que possam enfrentar essa desigualdade estrutural que mantém imóveis vazios enquanto famílias permanecem sem moradia adequada.