Petrobras leiloa GLP com ágio recorde de 30%, gerando preocupação no setor
Petrobras leiloa GLP com ágio de 30% e preocupa distribuidoras

Petrobras realiza leilão de GLP com ágio mínimo recorde de cerca de 30%

A Petrobras agendou para esta sexta-feira, 27 de março, um leilão de oferta de GLP (gás liquefeito de petróleo), popularmente conhecido como gás de cozinha, com o maior ágio mínimo já registrado. A estatal vai leiloar a entrega de 70 mil toneladas do produto, equivalente a aproximadamente 12% do consumo mensal brasileiro, com ágios mínimos variando entre R$ 885 e R$ 950 por tonelada, além do preço normal do produto, que atualmente está em cerca de R$ 2.900 por tonelada.

"Estamos preocupados e surpresos", afirma o presidente do Sindigás (Sindicato das Distribuidoras de GLP), Sérgio Bandeira de Mello. A reação do setor reflete a magnitude do aumento, considerando que no último leilão realizado pela empresa, os ágios mínimos variaram entre apenas R$ 20 e R$ 150 por tonelada. Ao final daquela concorrência, empresas que desejavam entrega em Ipojuca, Pernambuco, acabaram pagando R$ 1.190 de ágio, o que correspondeu a quase metade do preço de refinaria da região.

Estratégia da Petrobras e impacto no mercado

A Petrobras iniciou a realização de leilões de GLP em novembro de 2024, uma estratégia vista como uma maneira de repassar parcialmente ao mercado interno as variações das cotações internacionais do produto. Vale destacar que o GLP não tem reajuste nas refinarias da estatal desde julho daquele ano. Em nota oficial, a empresa defende que a parcela vendida em leilões atende especificamente à demanda das distribuidoras para venda aos segmentos comercial e industrial do combustível.

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"O objetivo é atender às necessidades crescentes do segmento industrial e de outras demandas que não se enquadram no uso residencial em botijões de 13 quilos", explica a Petrobras. "Portanto, no entendimento da empresa, os volumes arrematados em leilão não deveriam impactar os preços de GLP em botijões de 13 quilos."

Historicamente, o país já adotou uma política de diferenciação de preços entre os usos residencial e industrial. O GLP era mais barato quando comprado para envase em botijão de 13 quilos, comparado a vasilhames maiores ou venda a granel, produtos mais utilizados por comércio, indústria e grandes condomínios. Essa política foi extinta em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, com apoio do setor e de grandes consumidores.

Contexto político e medidas compensatórias

No ano passado, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, defendeu o retorno dos preços diferenciados. Em 2025, como alternativa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aprovou a ampliação do número de beneficiários do programa que fornece botijões de gás para famílias de baixa renda, agora renomeado como Gás do Povo. A Petrobras argumenta que sua participação no preço final do gás de cozinha é pequena, representando apenas R$ 34,73 em um preço médio de R$ 109,91 por botijão na semana passada.

Consequentemente, a empresa afirma que seus preços teriam efeito limitado na variação final do produto. Além disso, a estatal reforça que "permanece comprometida com a segurança e a continuidade do abastecimento nacional, inclusive no atendimento às demandas adicionais geradas pelo Programa Gás do Povo". Por essa razão, ampliou em 4,4% a oferta do produto para os meses de março e abril de 2026.

Cenário internacional e dependência de importações

O mercado global de GLP tem sido significativamente impactado pela guerra no Irã, um grande fornecedor de matérias-primas petroquímicas para a Ásia. Países como China e Índia enfrentam uma forte queda nas importações, com jornais indianos relatando que a escassez de produtos gera filas nas revendas e abre espaço para um mercado negro de botijões. Em 2025, cerca de 21% do mercado brasileiro de gás de cozinha foi abastecido com produtos importados.

Os Estados Unidos e a Argentina são os dois principais fornecedores do Brasil, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis). Essa dependência externa, combinada com as turbulências geopolíticas, contribui para a volatilidade dos preços e justifica, em parte, a estratégia de leilões adotada pela Petrobras para equilibrar as pressões do mercado internacional com as necessidades domésticas.

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