Padaria russa vira símbolo da crise tributária após apelo direto a Putin
A padaria Mashenka, localizada nos arredores de Moscou, transformou-se em um emblemático caso das dificuldades enfrentadas pelas pequenas empresas russas após reformas fiscais recentes. O estabelecimento, que homenageia a filha mais velha do proprietário Denis Maksimov, ganhou notoriedade nacional em dezembro de 2025, quando Maksimov apareceu no programa anual de perguntas e respostas do presidente Vladimir Putin.
Em um vídeo emocionado transmitido nacionalmente, Maksimov implorou ao líder russo que reconsiderasse as novas reformas tributárias que estão aumentando significativamente a carga sobre pequenas empresas como a sua. "Entendemos muito bem que não é uma situação fácil para o país. Entendemos que o aumento de impostos é necessário", declarou o empresário na ocasião. "Para ser franco, estamos olhando para o futuro sem otimismo. Muitas empresas vão fechar."
O contexto econômico desafiador
Com o quarto aniversário da invasão em larga escala da Ucrânia por Putin, a crescente pressão sobre a economia russa começa a se manifestar de forma mais evidente. As receitas do petróleo estão diminuindo, o déficit orçamentário aumentou consideravelmente e os gastos militares que impulsionaram o crescimento robusto estagnaram.
O Kremlin agora está explorando os consumidores e as pequenas empresas em busca de fundos adicionais. O imposto sobre valor agregado (IVA) foi aumentado em 2% e os limites de receita para obrigar as empresas a pagá-lo foram drasticamente reduzidos. Os russos comuns parecem estar sentindo o impacto de forma cada vez mais intensa.
O apelo que não mudou a política
O apelo televisivo de Maksimov a Putin não conseguiu reverter a reforma tributária, que reduziu o limite para obrigar as empresas a pagar o IVA de 60 milhões de rublos (cerca de R$ 4,04 milhões em receita anual) para apenas 20 milhões de rublos (aproximadamente R$ 1,35 milhão). A intenção declarada é chegar a 10 milhões de rublos (cerca de R$ 674 mil) até 2028.
O limite de faturamento foi reduzido de forma semelhante para aqueles que utilizam o "sistema de tributação por patente", no qual pequenas empresas fazem pagamentos anuais fixos — geralmente apenas dezenas de milhares de rublos — em vez de uma porcentagem de suas receitas ou lucros. Este ano, aqueles cujas receitas ultrapassarem 20 milhões de rublos precisarão pagar pelo menos 6% de imposto sobre suas receitas e pelo menos 5% de IVA.
Na troca de palavras televisionada, Maksimov explicou que vinha utilizando o sistema de patentes há oito anos, e Putin respondeu ressaltando a necessidade de uma reforma tributária para combater as importações ilegais "descontroladas", mas prometeu analisar o que poderia ser feito.
Fama passageira e incerteza contínua
A presença de Maksimov no programa presidencial atraiu atenção imediata e novos clientes para a Mashenka, que possui três padarias na região de Moscou. A empresa enviou uma cesta de produtos assados ao Kremlin e se vangloria em seu site de que Putin "experimentou nossas tortas".
A mídia russa citou Maksimov dizendo que as vendas aumentaram por um tempo, mas sem uma mudança na política tributária, ele cogitou seriamente fechar a empresa. Putin mencionou o caso de Mashenka em uma reunião do governo no mês passado, e o Ministro da Economia, Maxim Reshetnikov, propôs medidas que isentariam a empresa de Maksimov do pagamento do IVA e reduziriam seus outros impostos.
Pouco depois, o proprietário afirmou que não estava mais considerando fechar as portas. "Acho que vamos crescer, talvez mais lentamente do que antes, mas não com menos confiança", disse Maksimov à Associated Press este mês. Ele admitiu, no entanto, que ainda aguarda a aprovação das medidas propostas pelas autoridades, sem saber ao certo quando isso acontecerá.
Um movimento de solidariedade empresarial
O caso de Maksimov causou indignação entre outros pequenos e médios empresários russos. Em uma campanha online intitulada "Nós Somos Mashenka", iniciada pela Associação de Empresas da Indústria da Beleza, empresários de toda a Rússia relataram casos semelhantes, observando que, ao contrário de Maksimov que teve a sorte de conseguir a atenção de Putin, eles não tinham ninguém para ajudá-los.
Darya Demchenko, proprietária de uma rede de salões de beleza na segunda maior cidade da Rússia, apoiou a campanha e afirmou à AP que, dos quatro salões de beleza voltados para famílias em sua rede — três próprios e um operado por franquia —, precisou fechar uma unidade e vender outra para conseguir se manter.
"Nunca me senti tão assustada, tão desprotegida, tão ansiosa como neste ano", confessou Demchenko. Segundo ela, a decisão foi motivada pelo aumento expressivo dos impostos e de outros custos, além da queda na demanda pelos serviços.
O setor de beleza em crise
As reformas tributárias fizeram com que Demchenko deixasse de ser elegível para o sistema de patentes e passasse a pagar impostos muito mais altos, além de ter que contratar um contador em tempo integral para lidar com a papelada. Seus custos — como aluguel, suprimentos, segurança e serviços bancários — aumentaram 30%, acrescentou, observando que os fornecedores elevaram seus preços muito além do aumento de 2% do IVA.
Entretanto, a procura por serviços de beleza tem vindo a diminuir há meses. As restrições da Rússia às redes sociais e plataformas de mensagens a privaram de publicidade barata e de maneiras fáceis de alcançar clientes, explicou Demchenko.
"Este ano, não sentimos nenhum apoio. Temos a sensação de que querem nos calar", desabafou a empresária, contrastando com o período da pandemia de COVID-19 quando o setor resistiu graças ao apoio governamental, como isenções e adiamentos de impostos, além de estratégias de negociação com os proprietários para a suspensão temporária do aluguel.
Fechamentos em cadeia e previsões sombrias
Lyalya Sadykova, presidente da Associação de Empresas do Setor de Beleza, afirmou que cerca de 10% dos estabelecimentos do setor de beleza em São Petersburgo fecharam as portas e outros 10% venderam suas empresas em dezembro e janeiro. Ela prevê mais fechamentos nesta primavera.
"As pessoas vão fazer as contas. O primeiro prazo para o pagamento de impostos é em abril, e as pessoas vão perceber que não têm dinheiro para pagar, e é aí que o colapso vai começar", alertou Sadykova. "Acho que haverá falências e uma debandada em massa do mercado, porque agora me parece que nem todos fizeram as contas e entenderam a situação."
Histórias de empreendedores forçados a desistir
Quando as reformas tributárias foram adotadas no ano passado, as proprietárias de confeitaria Ilsiya Gizatullina e Railya Shayhieva decidiram fechar seu negócio em Kazan. Assim como Demchenko, elas citaram os aumentos maciços de impostos, o aumento dos custos e a queda na demanda.
"Foi uma decisão incrivelmente difícil, como amputar um membro. Porque morávamos lá, era a nossa vida, 24 horas por dia, 7 dias por semana", descreveu Gizatullina à AP. Inauguradas em 2020, as empresas sobreviveram à pandemia, que, segundo Gizatullina, foi apenas temporária. O novo sistema tributário veio para ficar.
"Entendemos perfeitamente que não será abolido depois de amanhã, e provavelmente haverá uma carga tributária ainda maior no futuro", lamentou Gizatullina. Como parte das reformas, mais empresas pagarão impostos mais altos em 2027 e 2028, já que as mudanças afetarão aquelas com receitas ainda menores.
A pressão estratégica sobre as pequenas empresas
As pequenas e médias empresas representam pouco mais de 20% da economia russa, mas ainda assim é um percentual significativo, afirma Chris Weafer, CEO da consultoria Macro-Advisory Ltd. Aumentar a aplicação do IVA a essas empresas significará uma arrecadação considerável para o orçamento do Estado.
Trata-se de "uma estratégia deliberada do Ministério das Finanças para criar fontes de renda mais estáveis e previsíveis" em um momento em que as receitas do petróleo estão em queda e o déficit orçamentário está em alta, analisou Weafer.
As pequenas e médias empresas têm estado sob pressão desde 2014, quando a Rússia enfrentou sanções devido à anexação ilegal da Península da Crimeia e o governo direcionou a maior parte do seu apoio às grandes empresas. As novas regulamentações fiscais aumentam a pressão, disse Weafer, e embora seja improvável que isso arruine a economia, irá dificultar o crescimento quando a guerra terminar.
"O único motor de expansão, crescimento e inovação necessário em uma economia é o setor que mais sofreu nos últimos quatro anos e continua sofrendo hoje", concluiu o especialista, destacando o paradoxo da situação econômica russa.