Moeda norte-americana valoriza-se em ambiente de incertezas internacionais
O dólar apresentou alta nesta quinta-feira (16), em um cenário onde investidores mantêm atenção redobrada às negociações envolvendo Estados Unidos e Irã, mas já adotam postura mais cautelosa. Dados do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica), considerado uma prévia do PIB (Produto Interno Bruto), também permanecem no radar dos agentes de mercado.
Cotação e desempenho dos mercados
Às 14h09, a moeda norte-americana registrava valorização de 0,30%, sendo cotada a R$ 5,007, movimento alinhado com o avanço observado no exterior. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a outros seis pares fortes, apresentava alta de 0,19% no mesmo horário. Em contrapartida, a Bolsa de Valores brasileira recuava 0,44%, alcançando 196.864 pontos, na contramão do avanço expressivo das ações da Petrobras.
Cenário geopolítico e precaução do mercado
A possível retomada das negociações de paz entre Estados Unidos e Irã continua sendo monitorada de perto, porém, na ausência de novidades relevantes no conflito geopolítico, os agentes de mercado passaram a adotar uma postura de maior precaução. A corretora Ágora observa o dólar em fase de oscilação, com o cenário internacional marcado por incertezas, mas destaca a valorização de ativos brasileiros, principalmente devido à exposição a commodities como o petróleo.
Nesta quinta-feira, a commodity avança significativamente no clima de indefinição. Às 14h10, o preço do petróleo Brent, referência mundial, subia impressionantes 4,80%, alcançando US$ 99,47, enquanto o barril WTI avançava 3,33%, cotado a US$ 94,36. Essa alta influencia diretamente na valorização das ações da Petrobras, que chegavam a subir até 4,17% durante a sessão.
Comportamento cambial recente
No mercado de câmbio, a moeda americana ainda mantém os menores níveis desde março de 2024, quando chegou a R$ 4,980, rondando consistentemente o patamar de R$ 5. Na última semana, o cenário de negociações impulsionou a busca global por ativos de risco, comportamento que beneficiou o fluxo para mercados emergentes, como é o caso do Brasil.
A trégua retomou o fluxo de investimentos estrangeiros para os países emergentes. O Brasil se valoriza especialmente pelo diferencial de juros com os Estados Unidos e pela distância geográfica em relação ao conflito. No começo deste ano, esse movimento levou o dólar a R$ 5,12 e a Bolsa brasileira a bater diversos recordes históricos em fevereiro. Contudo, esse fluxo foi interrompido com a escalada da guerra no Irã.
Com o cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos, o otimismo voltou a predominar. Na sexta-feira (10), a moeda encostou nos R$ 5 pela primeira vez desde que foi alçada a esse valor. Na segunda-feira (13), o dólar rompeu o piso, patamar que não era alcançado desde 2024. Entretanto, na última quarta-feira, o entusiasmo já começou a ser revertido, sem sinais claros de um progresso significativo no cenário geopolítico.
Declarações oficiais e incertezas persistentes
"Os investidores estão em compasso de espera. Na terça-feira, dois dias atrás, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que as negociações diplomáticas podem ser retomadas nos próximos dois dias, mas outras fontes afirmaram que o encontro poderia ocorrer somente no final de semana. Então, sobra essa dúvida", analisa Lucca Bezon, especialista em inteligência de mercado da StoneX.
Na quarta-feira, a secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que as conversas entre Estados Unidos e Irã estão em andamento e que o governo de Donald Trump mantém otimismo com a possibilidade de um acordo para o fim do conflito. "Continuamos muito engajados nessas conversas, vocês ouviram do vice-presidente [J. D. Vance] e do presidente [Trump] nesta semana que essas conversas estão sendo produtivas e estão em andamento", declarou.
Algo similar foi dito por Trump na quarta-feira em entrevista ao canal Fox. "Acho que isso pode acabar muito em breve. Vai acabar logo", disse em referência ao conflito. No entanto, algumas incertezas importantes persistem. O bloqueio dos Estados Unidos ao estreito de Hormuz, determinado por Trump no domingo (12), continua em vigor. O comando militar do Irã ameaça agir para conter o comércio pelo mar Vermelho caso o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos aos portos do país não seja levantado.
Essa via marítima tem sido utilizada por empresas para desviar das tensões entre os países, inclusive por companhias do agronegócio brasileiro. A medida dos Estados Unidos foi uma resposta direta à cobrança de pedágio feita pelo Irã para embarcações. Em vez de reabrir a passagem, como previsto na trégua, Teerã estabeleceu uma rota alternativa que, segundo o governo iraniano, evita minas colocadas pela própria teocracia e passa por suas águas territoriais. Um petroleiro precisaria pagar US$ 1 em criptomoedas por barril de óleo transportado.
Dados econômicos brasileiros e perspectivas
No Brasil, destaque para os dados do IBC-Br, considerado um importante sinalizador do PIB. O indicador registrou uma alta de 0,6% em fevereiro em relação ao mês anterior, segundo dado dessazonalizado, superando a expectativa de pesquisa da Reuters que apontava para ganho de 0,47%. Apesar da alta, o IBC-Br demonstrou clara desaceleração em relação ao crescimento de 0,86% observado em janeiro.
"[O dado] reforça a leitura de que a economia ainda cresce, mas com um menor fôlego na margem", afirma Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil. Em conjunto com os dados do IPCA de março, que registraram alta de 0,88%, os números reforçam a posição de vigilância do Banco Central em relação à trajetória da curva de juros - atualmente em 14,75%.
"Esse quadro costuma pesar sobre setores mais sensíveis a juros, mas também dá sustentação ao argumento de que o mercado seguirá calibrando expectativas de crescimento e Selic com muita cautela nas próximas semanas", complementa Araújo, destacando o cenário de prudência que deve predominar nos próximos movimentos do mercado financeiro brasileiro.



