Crise no Golfo Pérsico altera cenário econômico brasileiro
O impasse no Estreito de Ormuz, com o Irã recusando o acordo de paz e os Estados Unidos ameaçando garantir a navegação à força, está gerando ondas de impacto na economia global e, em particular, no Brasil. Com a guerra no Golfo Pérsico intensificando as tensões, o petróleo Brent voltou a superar a marca de US$ 100 por barril, e os contratos futuros mantêm tendência de alta até março de 2033. Essa situação turbulenta torna obsoletas as previsões semanais da Pesquisa Focus, encerrada na sexta-feira, exigindo uma análise mais cautelosa baseada na mediana dos últimos cinco dias úteis.
Inflação em aceleração e revisão da trajetória da Selic
Os dados mais recentes revelam uma aceleração preocupante nas projeções para a inflação de abril. Após um salto de 0,88% na inflação de março, as estimativas, que eram de 0,41% há um mês, saltaram para 0,50% na semana passada e atingiram 0,62% na mediana dos últimos cinco dias. Para o ano de 2026, a trajetória do IPCA sofreu uma alteração completa, impulsionada principalmente pela alta prevista nos preços administrados, especialmente na energia. Há quatro semanas, a Focus projetava um IPCA de 3,84% e alta de 3,7% nos preços administrados; agora, as projeções subiram para 4,71% no IPCA e 4,87% nos preços administrados.
O dado mais significativo, porém, é o crescente pessimismo do mercado quanto a um corte mais agressivo na taxa Selic. Inicialmente, esperava-se uma redução de 0,50% em 29 de abril, mas agora a aposta é de que o Banco Central adote cautela, com uma baixa de apenas 0,25%, levando a taxa a 14,50% ao ano. Uma queda de 0,50% só está prevista para 16 de junho, para 14,00%. Essa revisão reflete uma elevação geral na trajetória dos juros, com a taxa média para 2026 ajustada de 12,25% para 12,75% na mediana dos últimos cinco dias úteis.
Impactos no câmbio e na balança comercial
O impasse no Estreito de Ormuz não só mantém o petróleo em alta, mas também fortalece o dólar contra a maioria das moedas. No entanto, o Brasil, como exportador líquido de petróleo e alimentos, acaba se beneficiando indiretamente da crise. As projeções de aumento no saldo da balança comercial estão fortalecendo o real frente ao dólar. Após fechar na sexta-feira na mínima de R$ 5,0040, a menor cotação desde janeiro de 2024, o dólar subiu ligeiramente para R$ 5,0230, uma alta de 0,38%, seguindo os ajustes de outras moedas.
Nas projeções da Pesquisa Focus, o dólar, que era estimado em R$ 5,40 na semana passada, caiu para R$ 5,35 na mediana dos últimos cinco dias úteis. Essa queda do dólar é atribuída à nova curva de juros para a Selic, que mantém um diferencial elevado em relação aos juros dos Estados Unidos, atraindo capitais especulativos para o chamado "turismo de juros" em papéis do Tesouro Nacional. Esse movimento ajuda a neutralizar, em parte, as pressões inflacionárias geradas pela cadeia energética do petróleo, embora os desafios permaneçam significativos diante da instabilidade geopolítica.



