Banco Mundial projeta cenário econômico divergente para Argentina e Brasil
O Banco Mundial divulgou nesta quarta-feira (8) um relatório abrangente sobre o panorama econômico da América Latina e Caribe, revelando um cenário de contrastes marcantes entre os principais países da região. Enquanto a Argentina emerge como uma exceção positiva com perspectivas de crescimento robusto, Brasil e México enfrentam perda de dinamismo em meio a condições financeiras internas restritivas e incertezas políticas.
Argentina: a estrela em ascensão da região
O organismo internacional projeta um crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) argentino de 3,6% para este ano, representando uma recuperação significativa após o tombo de 1,3% registrado em 2024. Para 2025, a expectativa é de expansão de 4,4%, consolidando a trajetória positiva.
"A Argentina se destaca nesse contexto regional", afirma o documento, atribuindo o desempenho favorável ao ajuste decisivo liderado pela política fiscal implementado pelo governo de Javier Milei. Entre as medidas citadas estão:
- Transição de grande déficit em 2023 para superávits primários e globais
- Racionalização dos gastos públicos e combate ao desperdício
- Reforma tributária e do mercado de trabalho
- Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI) com redução de tributos
- Melhoria do ambiente de negócios e marco regulatório
O Banco Mundial destaca ainda a parceria estratégica com os Estados Unidos, estabelecida em fevereiro de 2026, para fortalecer as cadeias de suprimento de minerais críticos, vinculando instrumentos de financiamento norte-americanos ao RIGI argentino.
Brasil: desaceleração e desafios persistentes
Em contraste com o cenário argentino, o relatório aponta perspectivas mais modestas para a economia brasileira. A estimativa para 2025 é de crescimento de apenas 2,2%, representando desaceleração em relação aos 2,8% de 2024 e 3,4% de 2023.
"Espera-se que o Brasil desacelere ainda mais em relação a 2025", alerta o documento, citando como fatores limitantes:
- Condições financeiras restritivas com taxas de juros elevadas até início de 2026
- Ambiente externo fraco pressionando crédito, investimento e comércio
- Espaço fiscal limitado e demanda privada insuficiente
- Tensões comerciais persistentes e incertezas políticas
O Banco Mundial observa que a queda dos juros no começo deste ano e os preços vantajosos de commodities "permanecem insuficientes" para superar esses obstáculos estruturais. A análise aponta ainda que a inadimplência de crédito vem aumentando gradualmente, refletindo os efeitos defasados das elevadas taxas reais de juros.
Contexto regional e perspectivas limitadas
De modo geral, o relatório avalia que as perspectivas de crescimento para América Latina e Caribe permanecem "limitadas", apesar de condições financeiras globais ligeiramente mais favoráveis e da sustentação dos preços das commodities.
O documento ressalta que a falta de melhora em relação a 2025 "oculta perspectivas mais fracas para muitos países e implica ganhos de renda per capita praticamente estagnados". O consumo segue na liderança do crescimento regional, mas seu impulso é caracterizado como modesto, à medida que a renda real se recupera gradualmente e os custos reais de crédito continuam elevados.
O investimento é identificado como o principal fator limitante, permanecendo contido enquanto empresas aguardam sinais mais claros sobre o ambiente externo e os arcabouços de políticas internas.
Medidas governamentais em curso
No Brasil, o governo trabalha em um novo programa para reduzir o nível de endividamento da população, especialmente relevante em um ano eleitoral. A estratégia envolve:
- Unificação das dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal
- Refinanciamento com descontos que podem variar de 30% a 90% nos juros
- Possibilidade de autorizar uso de recursos do FGTS para pagamento de dívidas
As medidas foram admitidas pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, como parte dos esforços para aliviar a pressão sobre as finanças das famílias brasileiras.
O relatório conclui que, enquanto a Argentina colhe os frutos de reformas estruturais que melhoraram expectativas e condições financeiras, o Brasil enfrenta o desafio de superar restrições monetárias e fiscais que continuam a frear seu potencial de crescimento econômico.



