Especialistas alertam: aumento do querosene de aviação deve elevar preços das passagens aéreas em até 20%
Aumento do querosene deve elevar passagens aéreas em até 20%

Especialistas alertam: aumento do querosene de aviação deve elevar preços das passagens aéreas em até 20%

Quem está planejando viajar de avião nos próximos meses deve antecipar a compra de passagens, segundo análise de especialistas em economia dos transportes aéreos. O alerta surge após a Petrobras anunciar reajuste de 55% no preço do querosene de aviação (QAV) nesta quarta-feira (1°/04), aumento que não deve demorar a impactar o bolso dos passageiros.

Impacto iminente nos preços das passagens

Viviane Falcão, professora de Economia dos Transportes Aéreos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), projeta que o repasse do aumento deve ocorrer em até três meses. "Se eu pudesse dar um conselho neste momento, seria para comprar a passagem o quanto antes", afirma a especialista, destacando que as companhias aéreas fecham contratos de combustível com seis meses de antecedência, mas o cenário atual deve acelerar esse processo.

O aumento anunciado nesta semana segue tendência já observada em março, quando o preço do combustível subiu 9,4%. Falcão estima alta de 15 a 20% nas passagens aéreas nos próximos meses apenas refletindo a valorização do barril de petróleo no mercado internacional.

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Composição dos custos operacionais das empresas aéreas

O querosene de aviação corresponde a aproximadamente um terço dos gastos operacionais das companhias aéreas brasileiras. Com os reajustes consecutivos de março e abril, a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) prevê que o combustível passe a representar cerca de 45% desses custos, pressionando ainda mais a rentabilidade do setor.

Adriano Pires, economista e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), também projeta aumento de até 20% nas tarifas. "A gente vai ter que se adaptar a essa conjuntura negativa que o mundo está vivendo", comenta, ressaltando que parte dos custos deve ser absorvida pelas próprias companhias aéreas, com impacto financeiro significativo para essas empresas.

Consequências para a oferta de voos e lotação

Diante do cenário de custos crescentes, Pires alerta para possível redução no número de voos oferecidos pelas companhias aéreas - tendência já observada em outros países. Essa situação se agrava considerando que as empresas nacionais já retomaram o volume de passageiros de 2019, porém operam com menos aeronaves após a pandemia.

O resultado deve ser voos ainda mais lotados. Segundo Viviane Falcão, as três principais empresas que dominam o mercado brasileiro operam atualmente com ocupação média de 90% dos assentos, índice acima do mínimo estimado para viabilidade operacional.

Contexto geopolítico e dependência do mercado internacional

A valorização do querosene de aviação acompanha a tendência de alta do petróleo no mercado internacional, impulsionada pelo fechamento do Estreito de Ormuz em decorrência do conflito no Irã. Adriano Pires destaca que esta guerra tem particularidade importante: "Está proporcionando uma disrupção na oferta de gás e petróleo que a gente não teve em outros momentos", comenta em relação à ausência do que chamou de "sobra de oferta".

Embora o Brasil produza aproximadamente 80% do querosene de aviação utilizado no país, o preço da commodity reflete o mercado internacional. Pires ressalta que em regiões como Europa, Estados Unidos, China, Japão e Coreia do Sul, esses produtos relacionados ao petróleo já vêm sofrendo aumentos há tempo, acompanhando a valorização do petróleo - movimento que agora chega ao Brasil.

Medidas para mitigar os impactos

No mesmo dia do anúncio dos novos preços, a Petrobras revelou que oferecerá condições especiais de pagamento para distribuidoras que fornecem combustível à aviação comercial. A proposta inclui aumento inicial de apenas 18%, com parcelamento do restante em até seis vezes a partir de julho de 2026.

Para os viajantes, isso pode significar diluição no aumento dos preços das passagens aéreas. No entanto, Viviane Falcão expressa preocupação com a viabilidade dessa operação a longo prazo: "Fazendo esse processo de repassagem em gotas homeopáticas, certamente a Petrobras pode vir a sofrer, e não sabemos até quando ela consegue aguentar".

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Propostas governamentais para o setor aéreo

O Ministério de Portos e Aeroportos encaminhou ao Ministério da Fazenda proposta com ações destinadas a aliviar a pressão sobre o setor aéreo. O documento, preparado pela Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC), inclui sugestões como:

  • Redução temporária de tributos incidentes sobre o querosene de aviação
  • Diminuição do IOF aplicado às operações financeiras das companhias aéreas
  • Queda do Imposto de Renda sobre contratos de leasing de aeronaves

Segundo a pasta, essas medidas ajudariam a manter a competitividade das empresas, evitariam aumentos excessivos nas tarifas para passageiros e garantiriam a continuidade da malha aérea nacional. Além disso, está em análise a criação de nova linha do Fundo Nacional da Aviação Civil (Fnac) para financiar a compra de combustível, também com caráter temporário.

Dependência do transporte aéreo no Brasil

Adriano Pires ressalta que voar de avião é serviço "sem substituto" no Brasil, considerando a ausência de trens para viagens longas, as condições das estradas e a inviabilidade do transporte rodoviário em boa parte da região Norte, ainda muito dependente do transporte fluvial.

O resultado, segundo Viviane Falcão, é que a população acaba pagando o preço por décadas de negligência com o transporte aéreo por parte do Estado. Com o aumento iminente nos preços das passagens, os brasileiros que dependem desse modal enfrentarão desafios adicionais para manter sua mobilidade aérea.