Casal de Rio Preto troca casa fixa por vida em motorhome cor-de-rosa
Casal de Rio Preto vive em motorhome cor-de-rosa

Uma kombi cor-de-rosa estacionada chama atenção por onde passa, mas não se trata apenas de um veículo estilizado: é a casa inteira em movimento de um casal de São José do Rio Preto (SP). Marido e mulher vivem no motorhome, um estilo que transforma o cotidiano de outros casais do interior do Brasil em uma sequência de paisagens, encontros e pequenas adaptações.

Uma kombi, uma casa e uma nova vida

Há cerca de dois anos e meio, Francisca de Moura Brito, de 54 anos, decoradora, e o mecânico Raul Medeiros de Brito, de 52, alugaram a casa onde viviam em Rio Preto e passaram a morar em uma kombi adaptada. O modelo compacto ganhou personalidade e nome: “Penélope”, em referência à personagem Penélope Charmosa, do desenho “Corrida Maluca”. A escolha não foi por acaso. Apaixonada pela cor rosa, Fran, como é chamada, viu a brincadeira feita por amigos virar identidade. Até um logotipo foi criado: a caricatura dos dois dentro da Penélope estilosa.

“Eu gosto de tudo rosa. Aí ficou Penélope mesmo”, conta Fran. A kombi foi totalmente construída pelo próprio casal. Fran relata que ela mesma fez os móveis, instalou com o marido os sistemas elétrico e hidráulico e organizou o espaço para acomodar cozinha, cama, área de convivência e banheiro. “Não paguei nada para montar. Fui eu que fiz tudo”, garante ela.

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A vida dentro da kombi exige adaptações, mas, segundo a decoradora, rapidamente se torna natural. “A gente acorda, toma café, faz almoço. É uma vida normal. Só que menorzinha”, explica.

Menos contas, mais estrada

A decisão de alugar a casa foi estratégica para garantir uma renda fixa, ainda que modesta. Com custos reduzidos na estrada, graças à energia solar e à rotina simplificada, Fran e Raul conseguem se manter viajando. Ela complementa a renda com a venda de artesanato em encontros de motorhomes, aproveitando para comercializar itens como panos de prato e guardanapos. O abastecimento de água, um dos principais desafios desse estilo de vida, é resolvido com apoio de postos de combustíveis, prefeituras e, principalmente, das amizades feitas pelo caminho. “Você vai conhecendo pessoas que ajudam. Isso faz muita diferença”, ensina Fran.

Entre prainhas, encontros e quilômetros rodados

Antes de se aventurar em viagens mais longas, Francisca e Raul começaram explorando destinos próximos, como as prainhas da região noroeste paulista. A experiência serviu como um período de adaptação. Depois, vieram roteiros mais extensos: litoral de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e parte do Centro-Oeste. A viagem para Angra dos Reis e Paraty, a bordo da Penélope, em 2024, é considerada a memorável. Durou dois meses, e lá passaram o aniversário de casamento. O Nordeste ainda está nos planos.

Os encontros de motorhomes, como o realizado em Ubarana (SP), são pontos importantes dessa jornada. Mais do que eventos, funcionam como espaços de troca e convivência entre pessoas que compartilham o mesmo estilo de vida. O encontro em Ubarana atraiu aproximadamente 300 pessoas no fim de semana e feriado prolongado de Tiradentes.

Uma casa de 10 metros que cruza o país

O aposentado Nilo Sergio Carvalho, de 67 anos, e a esposa Aparecida, de 60, moradores de Uberlândia (MG), vivem essa experiência há mais tempo. Há 16 anos, o casal viaja em um motorhome montado em um ônibus MB O364 de cerca de dez metros de comprimento. O veículo, adquirido já adaptado, reúne conforto de sobra: quarto com cama de casal, banheiro com água aquecida a gás, cozinha equipada, mesa para refeições, televisão, geladeira, máquina de lavar roupa e energia gerada por placas solares. “É como se estivesse dentro da própria casa”, resume Nilo.

A rotina na estrada é organizada, mas flexível. O casal costuma viajar sozinho, embora em feriados e férias leve filhos e netos, especialmente para destinos com rios e pesca. Ao longo dos anos, os dois já percorreram diferentes regiões do país, com destaque para o Sul, onde mantêm uma rede de amigos. Entre os destinos já percorridos, estão Gramado e Pomerode, palco tradicional de encontros de campistas e caravanistas. As viagens mais longas duram até dois meses e meio. Mais do que isso, segundo Nilo, o prazer de viajar diminui. “Gosto de ir e voltar logo. Assim nossa vida dentro do motorhome não cai na rotina”, explica.

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Mesmo com a experiência, os desafios existem. Problemas mecânicos fazem parte do planejamento, assim como situações inesperadas. Em uma das viagens, em Maringá (PR), Aparecida sofreu uma queda e precisou de atendimento médico após fraturar a clavícula. “Em tudo há risco. Cada dia é um leão que tem que matar, mas a gente tem mais alegria”, declara Nilo. Para reduzir imprevistos, a manutenção do veículo é constante, e as paradas para descanso costumam ser feitas em postos de combustíveis, considerados mais seguros.

Prainha do interior de SP no roteiro

A viagem até Ubarana foi a primeira de Nilo e Aparecida à cidade paulista, descoberta por indicação de amigos. O cenário, com lago e áreas de sombra, chamou a atenção. “É um lugar lindo. Falta mais divulgação para o pessoal do motorhome conhecer”, avalia.

Um novo jeito de morar

Hoje, Francisca não esconde a preferência pela vida sobre rodas com o marido e sua Penélope. “Para mim, já é mais comum morar na kombi do que na casa. Eu não quero mais voltar para uma casa fixa”, afirma.