Bússola Climática: plataforma com IA conecta cidades brasileiras à adaptação urbana
Bússola Climática: IA conecta cidades à adaptação urbana

Uma nova ferramenta de inteligência artificial, batizada de “Bússola Climática”, está transformando a forma como as cidades brasileiras enfrentam os desafios das mudanças climáticas. Desenvolvida pela rede de cidades C40 em parceria com o Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e a Energia, a plataforma cruza dados sobre emissões de gases de efeito estufa, riscos climáticos, vulnerabilidade urbana e contexto territorial para sugerir ações prioritárias de adaptação e mitigação.

Como funciona a Bússola Climática

Segundo Sandino Lamarca Souza, gerente sênior de Dados e Ferramentas da C40, a iniciativa surgiu da constatação de que muitos municípios não têm estrutura técnica ou financeira para elaborar planos climáticos complexos. “Um diagnóstico municipal pode levar até dois anos e custar cerca de 800 mil reais”, afirma. “Propusemos uma metodologia para acelerar esse processo, e daí nasceu a Bússola Climática.”

A ferramenta utiliza inteligência artificial como um sistema de recomendação para políticas públicas. “A IA funciona como um Tinder climático”, compara Sandino. “Ela cruza o perfil de emissões, riscos e contexto urbano da cidade com ações que fizeram sentido em experiências semelhantes.” Dessa forma, a plataforma sugere medidas adaptadas à realidade de cada município, otimizando o planejamento.

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Resultados práticos em cidades brasileiras

A primeira fase do projeto envolveu cinco cidades-piloto. Em seguida, a metodologia foi ampliada para 50 municípios de diferentes portes e regiões, incluindo cidades amazônicas, capitais e municípios médios. Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e Rio Branco, no Acre, são exemplos de cidades que já utilizam a plataforma.

Em Caxias do Sul, os dados da Bússola Climática passaram a orientar discussões entre secretarias municipais após os eventos extremos de 2024. “A ferramenta ajuda a organizar prioridades”, explica Sandino. “Reunimos diferentes áreas da prefeitura para entender quais riscos são mais altos e quais ações podem ser implementadas.”

Desafios urbanos e adaptação climática

Atualmente, mais de 85% da população brasileira vive em áreas urbanas, onde se concentram problemas como ilhas de calor, enchentes, impermeabilização do solo e exclusão socioambiental. “A adaptação deixou de ser apenas uma pauta ambiental. Ela virou uma política básica de gestão urbana”, destaca Sandino. “Quando falamos de enchente, onda de calor ou deslizamento, estamos falando de mobilidade, habitação e saúde pública.”

Estudos recentes mostram que grande parte dos municípios brasileiros tem baixa capacidade adaptativa diante de extremos climáticos, agravada pela desigualdade urbana e ocupações em áreas de risco. A Bússola Climática busca preencher essa lacuna, oferecendo diagnósticos rápidos e recomendações baseadas em evidências.

O papel do Mutirão Brasil

A Bússola Climática integra o programa Mutirão Brasil, criado pela C40 e pelo Pacto Global de Prefeitos para acelerar projetos climáticos em municípios brasileiros. Lançado no contexto da COP30, o programa atua em áreas como mobilidade urbana sustentável, gestão de resíduos e financiamento climático, conectando municípios, governo federal e parceiros técnicos.

A iniciativa apoia mais de 50 municípios e estados brasileiros, reduzindo gargalos históricos como a falta de capacidade técnica para estruturar projetos e acessar financiamento. “Muitos prefeitos ainda não sabem que direção tomar em meio a tanta informação”, observa Sandino. “Mostramos exemplos concretos de outras cidades para ajudar na tomada de decisão.”

Urgência na implementação

No Rio de Janeiro, pesquisas recentes sobre calor extremo em favelas demonstram como a crise climática aprofunda desigualdades urbanas. “Se quisermos reduzir o tempo de resposta aos desastres climáticos, precisamos fortalecer os municípios”, afirma Sandino. “A implementação acontece nas cidades. É ali que a população sente primeiro os impactos.”

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A C40, criada em 2005, atua em temas como mobilidade sustentável, adaptação urbana e transição energética, representando mais de 900 milhões de pessoas. Já o Pacto Global de Prefeitos reúne mais de 13.800 cidades em 147 países, apoiando políticas climáticas coordenadas entre municípios e governos nacionais.