Agricultor descobre possível petróleo ao perfurar poço para água no sertão do Ceará
Um vídeo gravado em novembro de 2024 mostra o momento em que o agricultor Sidrônio Moreira comemora ao ver um líquido emergir da perfuração de um poço em sua propriedade em Tabuleiro do Norte, no interior do Ceará. Inicialmente, ele pensou se tratar de água, mas semanas depois, a família descobriu que a substância escura poderia ser petróleo. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) informou nesta quarta-feira (25) que está abrindo um processo administrativo para apurar o possível achado.
Investigações e análises laboratoriais confirmam semelhanças com petróleo
Após a descoberta, a família de Sidrônio contatou o Instituto Federal do Ceará (IFCE), que realizou uma série de exames laboratoriais. As análises, conduzidas pelo engenheiro químico Adriano Lima em parceria com a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), no Rio Grande do Norte, apontaram que o líquido tem características físico-químicas muito similares ao petróleo da Bacia Potiguar, região vizinha que abrange partes do Ceará e Rio Grande do Norte. "Conseguimos perceber que realmente se tratava de uma mistura de hidrocarbonetos muito característica", afirmou Adriano.
No entanto, a confirmação oficial só pode ser dada pela ANP, que recebeu a notificação da família e do IFCE em julho de 2025, mas só agora respondeu, iniciando a investigação. A agência também disse que vai contatar o órgão ambiental competente para as providências cabíveis, sem especificar quais medidas serão tomadas.
Família enfrenta incertezas e dificuldades financeiras
Enquanto aguarda a resposta da ANP, a família de Sidrônio vive na incerteza. A necessidade de água continua premente, obrigando-os a comprar água de carro-pipa para abastecer a propriedade. A descoberta do óleo e os custos da perfuração dificultam a abertura de um novo poço, já que um furo incorreto poderia contaminar o lençol freático. Para pagar a perfuração, Sidrônio usou economias e pegou um empréstimo, e a família até tentou um segundo poço, mais raso, sem sucesso.
"O que a gente queria era água, né?", disse Saullo, familiar do agricultor. "Hoje, eu queria que, se fosse petróleo, a gente resolvesse o mais rápido possível para ele ter essa forma de renda extra e, assim, conseguir levar a água."
Contexto geográfico e possíveis implicações econômicas
Tabuleiro do Norte, localizada a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza, na divisa com o Rio Grande do Norte, não está inserida em nenhum bloco de exploração de petróleo. No entanto, o local da descoberta fica a apenas 11 quilômetros do bloco mais próximo, o que, somado aos resultados do IFCE, sugere a possibilidade de haver petróleo na região. Adriano Lima alerta que a confirmação de hidrocarbonetos não significa automaticamente uma jazida viável economicamente, pois fatores como quantidade, qualidade e custos de extração precisam ser avaliados.
O processo de exploração, caso confirmado, pode ser longo e complexo. Após estudos da ANP para delimitar as jazidas, a região seria dividida em blocos para leilão, mas investimentos podem não ocorrer se a viabilidade for baixa. Em junho de 2025, por exemplo, a ANP tentou leiloar blocos na Bacia Potiguar sem sucesso, devido a questões econômicas e ambientais.
A família e as autoridades aguardam os próximos passos da ANP para definir como proceder, mantendo a esperança de uma solução que atenda tanto à necessidade de água quanto a uma possível fonte de renda.