Uberlândia mobiliza R$ 130 milhões para combater alagamentos históricos na Avenida Rondon Pacheco
Moradores de Uberlândia conhecem bem o cenário de risco: quando as chuvas fortes atingem a cidade, com volumes entre 35 e 40 milímetros, a Avenida Rondon Pacheco rapidamente se transforma em um rio de enxurradas. Esta via, que corta o município de leste a oeste e possui grande fluxo de veículos, acumula ao longo dos anos episódios graves durante temporais. Há registros de carros arrastados, pessoas ilhadas, asfalto destruído e até a trágica morte da influenciadora Jhei Soares, levada pela força das águas. Estes casos revelam um problema estrutural que vai muito além da simples drenagem da avenida.
Pacote de obras busca conter água antes da via principal
Em uma nova iniciativa para mudar este cenário crítico, o Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae), em parceria com a Prefeitura de Uberlândia, estruturou um ambicioso pacote de obras de drenagem no valor total superior a R$ 130 milhões. A estratégia central é conter e controlar a água da chuva antes que ela alcance a Rondon Pacheco, atuando diretamente nos córregos que deságuam na região. Três das quatro obras principais foram selecionadas para financiamento pelo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), permitindo ao município contratar crédito com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), através da Caixa Econômica Federal.
Segundo Lucas José de Oliveira, diretor-geral adjunto do Dmae, o município ainda precisa apresentar documentação para formalizar este financiamento, etapa crucial para a assinatura dos contratos. Além disso, outras duas obras de drenagem no bairro Morumbi foram incorporadas ao pacote, completando o conjunto de intervenções.
Represas e bolsões: a tecnologia por trás da contenção
O coração do projeto está na construção de represas e bolsões de contenção ao longo dos córregos que deságuam no córrego São Pedro, que passa sob a Rondon Pacheco. Estes reservatórios têm a função específica de armazenar a água da chuva temporariamente, liberando-a de forma lenta e constante. Isso evita que grandes volumes cheguem simultaneamente à avenida, reduzindo drasticamente o risco de enxurradas e alagamentos.
Um exemplo prático já está em funcionamento: no córrego Lagoinha, dentro do Camaru, uma represa com capacidade para reter 53 milhões de litros de água durante chuvas impede que todo o volume alcance de uma só vez a Rondon Pacheco. "Antigamente, tinha uma represa lá no Camaru que não fazia o papel adequado. Então, em 2024, foram feitas novas obras para que essa represa fosse utilizada como um dispositivo de contenção", explicou Lucas Oliveira. "Essa foi a primeira represa de contenção no curso do córrego Lagoinha. Agora, serão feitas mais represas ao longo do córrego com o objetivo de segurar essa água por um período, para que ela possa escoar mais lentamente. É para dar um fôlego ao sistema".
As obras financiadas pelo Novo PAC incluem intervenções no Córrego Lagoinha (nos bairros Santa Mônica, Santa Luzia, Pampulha e Carajás) no valor de R$ 65,9 milhões, dois reservatórios ao longo do Córrego Mogi (R$ 22,4 milhões), drenagem pluvial na sub-bacia Geraldo Abrão, no bairro Granada (R$ 12,6 milhões), e redes de infraestrutura no Loteamento Maná, bairro Morumbi (R$ 21,6 milhões). Outra obra no Loteamento Zaire Rezende, também no Morumbi, recebeu R$ 2,9 milhões.
Licitação avança e obras devem começar em 2026
O processo licitatório para parte significativa destas intervenções já está em andamento. Em outubro de 2025, a Prefeitura lançou edital para contratar uma empresa de engenharia para elaborar projetos e executar obras nos córregos Lagoinha e Mogi. Após análise das propostas, o resultado foi homologado em 1º de abril de 2026, com a empresa DP Barros Pavimentação e Construção Ltda. vencedora de um contrato de R$ 70,3 milhões. "Inicialmente, a licitação estava estruturada com recursos provenientes de financiamento via Finisa. No entanto, buscando melhores condições financeiras, como taxas de juros mais baixas e maior prazo de amortização, o município optou pela migração para recursos do PAC", detalhou Oliveira.
As obras devem ter início ainda em 2026. Para os três reservatórios de contenção ao longo do córrego Lagoinha na divisa dos bairros Granada e Santa Luzia – que, apesar de selecionados pelo PAC, ainda não tiveram liberação de crédito –, o financiamento será realizado via Finisa, enquanto o restante virá do convênio com a Caixa.
Por que conter a água antes da Rondon Pacheco?
A Avenida Rondon Pacheco está situada no ponto mais baixo da bacia do córrego São Pedro, a maior de Uberlândia. Esta região recebe aproximadamente um terço de toda a água da chuva da cidade, incluindo os córregos Lagoinha, Mogi e Jataí. Com o crescimento urbano e a impermeabilização do solo, a água escoa com muito mais velocidade, fazendo com que grandes volumes cheguem quase simultaneamente à avenida. "A Rondon funciona como uma grande calha da cidade. Quanto mais a cidade impermeabiliza, mais rápido a água chega ali", afirmou o diretor do Dmae.
Diante deste cenário, a estratégia adotada não é ampliar a drenagem da própria avenida – considerada quase inviável devido à densa concentração de redes de água, esgoto, galerias e fibra ótica –, mas sim reter a água ao longo de seu caminho, antes do ponto crítico. Paralelamente às obras, o município prepara o Plano Diretor de Drenagem Pluvial, que mapeará áreas críticas e indicará novas soluções, especialmente para bairros com topografia plana, como o Morumbi, onde o escoamento natural é dificultado.
O pacote também contempla os assentamentos Maná e Zaire Resende, que ainda carecem de rede completa de drenagem. As obras implantarão drenagem pluvial e redes de água e esgoto, direcionando a água da chuva para redes já existentes na região do Morumbi. Este conjunto de ações representa um esforço histórico de Uberlândia para enfrentar um problema que há décadas coloca vidas e patrimônios em risco durante o período chuvoso.



