Estudo revela abandono do pré-natal por gestantes brasileiras
Quase todas as gestantes brasileiras realizam a primeira consulta pré-natal, mas uma em cada cinco abandona o ciclo mínimo durante a gravidez. Esta é a conclusão de um estudo conduzido pelo Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Os dados apresentam um paradoxo: enquanto o acesso inicial é praticamente universalizado, a continuidade do acompanhamento apresenta falhas significativas, especialmente entre populações vulneráveis.
Desigualdades regionais e sociais
A pesquisa utilizou dados de 2023 do Sistema de Informações Sobre Nascidos Vivos (Sinasc) para avaliar o cumprimento da meta estabelecida pelo Ministério da Saúde, que aumentou para sete o número mínimo de consultas pré-natal. Os números mostram uma adesão de 99% na cobertura para a primeira consulta, percentual que cai para 79% na última consulta. Segundo a pesquisadora Luiza Eunice Sá da Silva, esta queda revela problemas de acessibilidade e falta de recursos financeiros que impedem a continuidade do acompanhamento.
A escolaridade é um dos principais determinantes para o abandono. Enquanto 86,5% das mulheres com pelo menos 12 anos de estudo completam o ciclo, apenas 44% das que não têm escolaridade atingem o mesmo patamar. No recorte racial, as desigualdades são ainda mais marcantes: mulheres indígenas são as mais prejudicadas, com apenas 51% concluindo o pré-natal completo. Entre mulheres brancas, o índice é de 84%, enquanto pretas e pardas registram 76% e 75%, respectivamente.
Disparidades territoriais e etárias
As desigualdades também se apresentam entre diferentes regiões do país. O Norte tem a cobertura mais baixa para as sete consultas, com apenas 63% das gestantes completando o ciclo. O melhor resultado está no Sul, com 85%, seguido pelo Sudeste (81%), Centro-Oeste (77%) e Nordeste (76%). A diferença entre a primeira e a sétima consulta entre mulheres indígenas chega a 46 pontos percentuais, três vezes mais do que o observado entre brancas, que é de 15,3 pontos.
Entre mulheres menores de 20 anos, 68% realizam o ciclo completo, enquanto 83% das maiores de 35 anos atingem o mesmo número. Segundo Luiza, há determinantes específicos que condicionam estes resultados. "No caso das adolescentes, por exemplo, isso ocorre porque muitas delas descobrem a gravidez tarde, com pouco tempo para a conclusão das sete consultas", explica a pesquisadora.
Estratégias para correção das desigualdades
Para Evelyn Santos, gerente de investimento e impacto social da Umane, que apoiou a pesquisa, estados e municípios precisam mapear suas deficiências apresentadas pelos dados do estudo. "Uma vez que as condições de vida da gestante na rede de saúde são muito diferentes em cada território, e mesmo em cada bairro, o primeiro passo deve ser entender as barreiras e os facilitadores de cada local", afirma.
O epidemiologista Cesar Victora, coautor do estudo, defende que as estratégias devem anteceder uma melhora no padrão de qualidade do cuidado. Para ele, os resultados confirmam a hipótese de equidade inversa, que designa benefícios direcionados primeiramente para grupos já favorecidos. "Sete consultas não são um número arbitrário, mas o mínimo necessário para acompanhar o ritmo acelerado da vida intrauterina. Sem esse monitoramento regular, perdemos a oportunidade de tratar precocemente condições como infecções, hipertensão, diabetes gestacional", explica o médico.
Entre as estratégias sugeridas estão a vinculação do pré-natal ao hospital maternidade e a busca ativa das gestantes nos territórios. A correção das desigualdades deve acontecer antes da melhora de qualidade, para não afastar grupos já distantes da meta estabelecida. O estudo reforça que os avanços na saúde chegam primeiro às populações mais favorecidas, deixando para trás aquelas que mais precisam de atenção e cuidados.



