Secretaria de Esportes de SP não localiza R$ 23 milhões em materiais comprados
SP: R$ 23 milhões em materiais esportivos desaparecem

Desaparecimento de R$ 23 milhões em materiais esportivos gera apuração em São Paulo

A Secretaria de Esportes do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) enfrenta uma grave situação de desaparecimento de materiais adquiridos com recursos públicos. Um inventário realizado por determinação do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) revelou que itens no valor de R$ 23 milhões não foram localizados nas dependências da pasta.

Discrepância milionária no almoxarifado

A comissão de inventário identificou inicialmente notas de empenho referentes a compras de materiais que totalizavam R$ 51,5 milhões. No entanto, ao verificar fisicamente os itens armazenados, encontrou apenas materiais no valor de R$ 16,7 milhões. A secretaria conseguiu posteriormente justificar o destino de mais R$ 11,5 milhões em materiais, parte dos quais havia sido doada para escolas, entidades e municípios.

Apesar desses esforços, permanece inexplicado o paradeiro de itens no valor de R$ 23 milhões, levantando sérias questões sobre a gestão patrimonial da pasta esportiva.

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Falta de controle e organização documentada

O termo de inventário elaborado pela comissão registrou explicitamente "falta de zelo" e desorganização no armazenamento dos materiais. Imagens anexadas ao documento mostravam caixotes de papelão abertos e empilhados de forma inadequada. Mais grave ainda, o grupo não encontrou qualquer sistema de controle de estoque físico e contábil do material, situação que contraria a legislação vigente.

Vitor Schirato, professor de direito administrativo na Faculdade de Direito da USP, comentou a gravidade do caso: "Imagina uma empresa privada com uma diferença de estoque de milhões. Põe metade da empresa na rua no dia seguinte". O especialista destacou que uma sindicância deveria ter sido aberta imediatamente para esclarecer os fatos.

Histórico de fiscalização e medidas insuficientes

O problema começou a ser identificado no início de 2025, quando o TCE-SP examinou a prestação de contas da secretaria e encontrou divergências entre o saldo do almoxarifado apresentado pela pasta e o registrado no Siafem, sistema de controle orçamentário estadual. O tribunal ressaltou em relatório que não havia controle de estoque que permitisse a elaboração de um inventário físico.

Em resposta à fiscalização, a então secretária Helena Reis (PSD) determinou a criação de uma comissão de inventário em abril do ano passado. Em junho, o coordenador da comissão, Sergio Soares, já indicava uma discrepância de R$ 34,7 milhões entre os materiais encontrados "in loco" e o valor contábil das notas de empenho.

Medidas corretivas e exonerações

O então secretário-executivo José Ribeiro Lemos Junior determinou em julho a adoção de sete providências "com máxima prioridade e diligência" para regularizar as falhas apontadas. Entre as medidas estava a apresentação de um plano de ação detalhado, o que não foi cumprido pela equipe responsável.

Em outubro, Lemos determinou a criação de uma equipe de trabalho específica para apurar o rombo. No entanto, no início de 2026, tanto Lemos quanto o subsecretário de gestão corporativa Marcelo Nanya foram exonerados de seus cargos. Segundo fontes ouvidas sob reserva pela reportagem, Lemos incomodava a cúpula da secretaria pela pressão que fazia pela abertura de apurações.

Justificativas e compromissos da secretaria

Questionada sobre o caso, a Secretaria de Esportes afirmou que determinou "a implementação de medidas aprimoradas de controle, rastreamento e gestão patrimonial". Em nota, o órgão reafirmou "seu compromisso com a correta aplicação dos recursos públicos e com a transparência de suas ações".

A pasta informou ainda que está sendo produzido "um relatório de análise preliminar que subsidiará" a instauração de sindicância e que "prossegue com a apuração" para "verificar as inconsistências entre registros contábeis e o estoque físico de materiais".

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Marcelo Nanya, em despacho encaminhado ao então secretário-executivo, argumentou que houve dificuldades na fase de levantamento documental, "especialmente quanto à identificação, correlação e vinculação entre materiais físicos, registros de estoque e respectivas notas de empenho". Por esses motivos, defendeu que o valor restante de R$ 23 milhões não poderia ser considerado para fins de apuração.

A secretaria finalizou sua posição afirmando que "colabora integralmente com os órgãos de controle e fiscalização" e que "não compactua com desvios de conduta", garantindo que "todas as providências cabíveis estão sendo tomadas".