Prefeitura de SP paga quase o triplo do previsto por terreno para floresta municipal
SP paga quase triplo por terreno para floresta municipal

Prefeitura de São Paulo desembolsa valor quase triplo do previsto em desapropriação para floresta municipal

A administração municipal de São Paulo efetuou um pagamento significativamente superior ao inicialmente projetado para a aquisição de um terreno no distrito do Grajaú, extremo sul da capital paulista. Os valores corrigidos pela inflação revelam uma diferença mínima de R$ 17 milhões entre o parecer técnico interno e o montante efetivamente desembolsado, que totalizou R$ 26,3 milhões.

Desapropriação oficializada no final do primeiro mandato de Nunes

A transação foi formalizada em 27 de dezembro de 2024, último mês do primeiro mandato do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que já havia sido reeleito. A área de 138 hectares destina-se à consolidação da primeira floresta municipal da cidade, a Fazenda Castanheiras, embora processos judiciais ainda estejam em andamento para a posse de terrenos adjacentes.

Estimativa técnica versus valor pago

Um parecer técnico da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, elaborado em setembro de 2020, estimava o valor médio da terra na região em R$ 46 mil por hectare. Com base nesse parâmetro, o custo para o terreno de 138 hectares seria de aproximadamente R$ 9,1 milhões em valores atualizados. Curiosamente, o documento também mencionava que o imóvel estava à venda no mercado por R$ 4 milhões (R$ 5,7 milhões corrigidos), valor considerado uma oportunidade para iniciar o projeto da floresta municipal.

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Justificativas da gestão municipal

Questionada sobre a discrepância, a gestão Nunes emitiu uma nota defendendo o valor final. A prefeitura argumentou que a avaliação considerou:

  • O mercado atualizado na data da imissão na posse
  • O zoneamento específico da área (Zepam/ZPDSr)
  • As 37 benfeitorias existentes, avaliadas em R$ 2,8 milhões

Além disso, a administração municipal afirmou que o parecer de 2020 era "um documento preliminar de planejamento" e não considerava características como edificações, infraestrutura de acesso, cercamentos e cobertura vegetal de alto valor ecológico.

Histórico do terreno e contexto do projeto

Até dezembro de 2024, o terreno pertencia à empresa Agro Castanheiras, que cultivava pinheiros e, mais recentemente, palmito-juçara. O plano de transformar a região em unidade de conservação remonta à década de 2000, motivado pelos impactos ambientais da construção do trecho sul do Rodoanel, que ameaçou dezenas de nascentes.

A área de 138 hectares não estava no plano original do parque, publicado em decreto de 2009, que perdeu efeito após dez anos sem desapropriações. A inclusão ocorreu apenas em 2020, em uma segunda rodada de estudos.

Controvérsias e oferta recusada

Embora o processo de desapropriação tenha sido amigável, registros indicam que a prefeitura recusou uma oferta mais vantajosa. Em reunião de 25 de fevereiro de 2025, o coordenador de Fiscalização Ambiental, Rodrigo Martins, afirmou que o proprietário havia oferecido o terreno por R$ 14 milhões, mas a prefeitura optou por seguir o laudo que avaliou o imóvel em R$ 26 milhões.

Análise do laudo e metodologia questionável

O laudo, elaborado por empresa contratada pela prefeitura, utilizou um "empreendimento hipotético" de construção de chácaras para calcular o valor do terreno, embora a área construída real seja de apenas 3.460 m². A empresa estabeleceu o valor de R$ 161 por m², com base em comparações com outros terrenos na região.

Entretanto, em laudo para terreno vizinho destinado à mesma floresta municipal, a mesma empresa chegou ao valor de R$ 25 por m². Especialista consultado pela reportagem considerou o método do empreendimento hipotético questionável, pois a construção de chácaras não seria permitida devido a restrições ambientais.

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Custo total e perspectivas futuras

Considerando o valor já pago e as notas de empenho emitidas para os terrenos que formarão a floresta, a prefeitura deverá desembolsar mais de R$ 66 milhões, representando um aumento de 138% para uma área menor do que a originalmente prevista. O projeto, que visa criar uma reserva ambiental significativa na capital paulista, continua gerando debates sobre transparência e eficiência no uso de recursos públicos.