Estudo alternativo ao Túnel Sena Madureira propõe intervenções viárias com custo 99,84% menor
Um estudo técnico que apresenta intervenções viárias de baixo custo como alternativa ao polêmico Túnel Sena Madureira, na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo, foi apresentado nesta quinta-feira (26) durante audiência pública na Câmara Municipal. A proposta prevê medidas como inversão de sentido de vias e reprogramação de semáforos, com custo total estimado em aproximadamente R$ 1 milhão - valor que representa apenas 0,16% dos R$ 622 milhões orçados para a obra subterrânea defendida pela prefeitura.
Audiência pública e críticas à ausência do Executivo
A sessão foi presidida pela vereadora Renata Falzoni (PSB), que contratou o estudo técnico em conjunto com os vereadores Marina Bragante (Rede), Nabil Bonduki (PT) e Toninho Vespoli (PSOL). Na abertura dos trabalhos, Falzoni afirmou categoricamente que o túnel defendido pela gestão municipal não soluciona efetivamente os problemas de trânsito da região e pode inclusive criar novos gargalos ao direcionar veículos para vias residenciais.
A parlamentar classificou a proposta alternativa como um uso mais responsável dos recursos públicos e criticou veementemente a ausência da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) na audiência. Representantes da Secretaria de Mobilidade Urbana e Trânsito, da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e da Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras foram formalmente convidados, mas não compareceram ao debate.
"Com base em ciência, estamos comprovando que o túnel não é necessário, não precisa, ou melhor, não deve ser feito", declarou Falzoni durante a audiência.Ela questionou ainda: "Agora do outro lado, onde estão os argumentos técnicos em defesa do túnel e da necessidade dele? Cadê o Executivo para se defender?"
Metodologia do estudo e questionamentos sobre a obra milionária
A vereadora explicou detalhadamente que o estudo realizado por uma consultoria especializada utilizou a mesma metodologia empregada pela CET e se baseou em contagens de fluxos veiculares com 12 câmeras distribuídas ao longo de 12 vias por vários dias consecutivos. Segundo Falzoni, o objetivo principal da audiência foi abrir um debate público amplo e demonstrar de forma transparente que existem soluções menos onerosas que aparentemente não teriam sido consideradas pela administração municipal.
"Não é possível uma obra de R$ 622 milhões que não passe antes por uma análise profunda que responda duas simples perguntas: essa obra é mesmo necessária? Existem alternativas a ela?", questionou a vereadora durante sua exposição.Histórico conturbado do projeto do túnel
A gestão Ricardo Nunes (MDB) mantém o Túnel Sena Madureira firmemente em seu plano de metas e recentemente refez uma licitação para contratar a execução da obra. A empresa selecionada para realizar a construção pelo valor de R$ 622 milhões é a Álya Construtora, sucessora da antiga Queiroz Galvão.
Curiosamente, a mesma empreiteira havia vencido o certame original para este mesmo túnel em 2010, mas o contrato foi posteriormente cancelado após o Ministério Público apontar indícios concretos de fraude no processo licitatório. O projeto sempre gerou forte oposição da vizinhança local, que mobilizou diversos protestos contra o corte de árvores em 2014, o que levou à suspensão temporária das obras por decisão judicial.
Durante a audiência na Câmara Municipal, representantes de associações de bairro criticaram duramente os potenciais impactos ambientais do projeto e a falta completa de transparência sobre o destino das famílias da comunidade Souza Ramos, que podem ser removidas caso a obra seja executada.
Detalhes da proposta alternativa de baixo custo
A proposta apresentada pelos vereadores tem custo estimado detalhado em três componentes principais:
- R$ 300 mil para obras civis e adequações de acessibilidade
- R$ 200 mil para sinalização vertical e horizontal
- R$ 500 mil para modernização e reprogramação de semáforos
A ideia central é reorganizar completamente o tráfego da região através de inversões estratégicas de sentido de vias, ajustes precisos nos tempos semafóricos e redistribuição inteligente dos fluxos veiculares. Esta abordagem eliminaria a necessidade da travessia direta da Rua Domingos de Morais pela Sena Madureira, apontada como um dos principais pontos de congestionamento crônico da área.
Uma das alternativas específicas para diluir o trânsito sugere utilizar as ruas Mairinque, Cunha e Berta para cruzar a Domingos de Morais com ajustes semafóricos coordenados. Outra opção prevê a travessia mais adiante, nas ruas Diogo de Faria e Thirso Martins, que teriam seus sentidos de circulação invertidos para melhorar a fluidez.
Os vereadores enfatizaram que sua proposta representa não apenas uma economia monumental de recursos públicos, mas também uma solução mais rápida, menos invasiva e com impactos ambientais significativamente reduzidos em comparação com a construção do túnel subterrâneo.



