Renner retira blusa 'Regret Nothing' após réu de estupro usá-la e vínculo com Andrew Tate
Renner retira blusa após réu de estupro usá-la e vínculo com Tate

Renner retira blusa 'Regret Nothing' após réu de estupro usá-la e vínculo com Andrew Tate

A Renner retirou de suas lojas a blusa com a frase 'regret nothing' (não se arrependa de nada) que foi usada por Vitor Hugo Simonin, 19 anos, réu pelo estupro coletivo sofrido por uma jovem de 17 anos no Rio de Janeiro. Ele vestia a camiseta com a inscrição quando se entregou à polícia no dia 4 de setembro, conforme mostrou a Folha de S. Paulo. A retirada da peça ocorreu no domingo, 8 de setembro, após uma ampla repercussão negativa nas redes sociais e na mídia.

Associação com Andrew Tate e a machosfera

A frase 'regret nothing' é também um 'mindset' promovido por Andrew Tate, influenciador americano-britânico declaradamente misógino, que é réu por acusações de estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores. Tate é citado na série 'Adolescência' da Netflix, que aborda a influência da chamada machosfera – comunidades online misóginas – e a omissão parental na era digital. Ele é considerado um mentor do movimento red pill, grupo frequentemente associado à misoginia e à hipermasculinidade tóxica.

Em nota, a Renner afirmou que a retirada da blusa foi uma resposta direta à repercussão negativa e que a empresa 'repudia qualquer forma de violência ou conduta ofensiva'. A companhia reafirmou seu compromisso com valores institucionais e explicou que o processo criativo da peça teve como base manifestações culturais contemporâneas, como poesias e composições musicais.

Análise de especialistas sobre o discurso e a moda

Phellipe Marcel Esteves, doutor e professor de linguística e análise de discurso da Universidade Federal Fluminense (UFF), destacou que 'tudo o que produz sentido, dos elementos linguísticos ao que vestimos, está vinculado a ideologias específicas'. Ele argumentou que, ao usar uma frase associada a subculturas misóginas, o indivíduo se inscreve simbolicamente nesse contexto, mesmo que não intencionalmente.

Renato Levin, professor de filosofia e pesquisador sobre radicalização entre jovens na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), alertou para a deturpação do estoicismo por grupos red pills. 'Há uma distorção que chamamos de 'estoicismo guerreiro', que inclui hipermasculinidade e dessensibilização em relação às mulheres', explicou. Ele enfatizou que ser estoico não significa falta de empatia ou consideração ética.

Repercussão e desculpas de Andrew Tate

Andrew Tate, ex-lutador de kickboxing profissional, já declarou diversas vezes que considera errado se arrepender, inclusive em declarações à Justiça da Romênia. Em janeiro deste ano, ele foi filmado cantando uma música com saudação nazista junto a influenciadores de extrema direita. Após a repercussão, Tate pediu desculpas, o que gerou piadas de outros influenciadores que o chamaram de 'beta' – termo pejorativo da machosfera para homem considerado fraco.

Além das acusações criminais, Tate já fez declarações misóginas, comparando mulheres a cães e sugerindo que algumas têm responsabilidade por terem sido estupradas. Seu advogado, Eugen Vidineac, não respondeu a solicitações de comentário por email.

Posicionamento final da Renner

Após a publicação inicial da reportagem, a assessoria da Renner enviou uma nova nota reforçando que o processo criativo da blusa não tem qualquer relação com o movimento red pill. A empresa afirmou que a base conceitual foi pautada em manifestações culturais contemporâneas, mas, mesmo assim, providenciou a retirada do item de todos os seus canais digitais e lojas físicas como medida de responsabilidade social.

Este caso ilustra como a moda pode se tornar um campo de disputa ideológica, especialmente quando peças de vestuário são associadas a figuras controversas e a movimentos que promovem discursos de ódio. A rápida ação da Renner reflete a sensibilidade das marcas em relação à opinião pública e aos valores sociais em um contexto de crescente conscientização sobre violência de gênero.