Estudo inédito revela tríade de problemas em sociedades lusófonas e mostra Brasil isolado
O primeiro Barômetro da Lusofonia mapeou as percepções de aproximadamente 300 milhões de falantes de português em oito países, encontrando dores comuns e diferenças surpreendentes. A pesquisa, realizada simultaneamente em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, oferece um diagnóstico contundente sobre a comunidade lusófona.
A tríade de desafios que unifica os lusófonos
Lançado na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Lisboa, o estudo identificou uma agenda de preocupações que transcende fronteiras geográficas. Saúde (53%), educação (43%) e desemprego (34%) formam a tríade de problemas centrais apontada espontaneamente pelos entrevistados em quase todos os países. Essa insatisfação com serviços públicos e economia reflete-se nas avaliações rigorosas que os cidadãos fazem do presente de suas nações.
A nota média para o desenvolvimento do país (5,3) é consistentemente inferior à satisfação com a vida pessoal (6,3), sugerindo que o indivíduo lusófono encontra resiliência em sua esfera privada, mas mantém um olhar crítico sobre o ambiente institucional. Além disso, apesar de 91% dos lusófonos considerarem o voto fundamental, 57% se declaram frustrados com a democracia, demonstrando um desejo por maior accountability (responsabilização) dos governantes.
Brasil: potência cultural com isolamento preocupante
Um dos achados mais provocativos da pesquisa diz respeito ao papel do Brasil na rede lusófona. O país se consolida como a maior vitrine cultural do bloco: 73% dos entrevistados de outras nações lusófonas consomem produtos culturais brasileiros, como música, audiovisual e literatura. Contudo, essa influência não é recíproca, revelando um isolamento preocupante.
O Brasil aparece como o país mais narcisista e desinformado sobre a CPLP. Enquanto 95% dos cabo-verdianos e 86% dos portugueses citam o Brasil como nação lusófona, os brasileiros registram o menor nível de conhecimento sobre seus irmãos de língua. Apenas 34% dos brasileiros declaram consumir cultura de outros países lusófonos, e impressionantes 74% afirmam não assistir a nenhum programa de televisão originário dessas nações.
Paradoxos socioeconômicos e digitais no Brasil
O Brasil também lidera em contradições marcantes. É o país onde se registra a maior média de satisfação com a vida pessoal (7,9), mas simultaneamente é a nação mais desigual do bloco, com um Índice Gini de 51,6. No campo digital, o país compartilha com Portugal a liderança no recebimento de notícias falsas: 80% dos brasileiros afirmam já ter recebido fake news.
O brasileiro é também o que mais se preocupa com a gravidade desse fenômeno, com 77% acreditando que a desinformação causa muitos problemas ao país, o índice mais alto entre todas as nações pesquisadas. A violência aparece como problema central para 40% dos brasileiros, enquanto a média da comunidade é de 18%, e a corrupção é citada por 25% no Brasil contra 13% na média geral.
Diferenças nacionais e o futuro da integração
Apesar das semelhanças, algumas nações enfrentam problemas específicos de forma diferenciada. Portugal é o único país onde a imigração aparece como problema nacional relevante (17%), com 52% vendo o ambiente social como desfavorável aos imigrantes. Contudo, 60% ainda reconhecem que a imigração é benéfica, evidenciando uma divisão social.
Apesar do desconhecimento brasileiro, o Barômetro mostra que a ideia de uma comunidade integrada é amplamente desejada. Uma vez informados sobre a missão da CPLP, 88% dos brasileiros consideram a organização importante. As expectativas para o futuro são guiadas pela esperança: 52% dos lusófonos acreditam que seus países vão melhorar nos próximos 12 meses, com destaque para o otimismo vibrante no Timor-Leste, com taxa expressiva de 87%.
Para os organizadores, os dados indicam que o potencial da lusofonia como ativo estratégico — em comércio, ciência e soft power — ainda está subaproveitado. O desafio, especialmente para o Brasil, é converter a hegemonia cultural em uma integração de mão dupla que ultrapasse o mero compartilhamento do dicionário, criando condições mais favoráveis à prática democrática em toda a comunidade lusófona.